sábado, 28 de maio de 2011

Ação e Esperança

Tudo eu queria dizer
e algo talvez quisesse se calar
num dilúvio de um silêncio tacanho
e pobre de espírito.

Ouvi dizer
que as duas coisas de que se vive
são a esperança e a ação
e sei que talvez seja assim mesmo.
Ou esperamos tanto
que nos esquecemos de agir
ou agimos tanto que nos lembramos de esperar.

O que me faz lembrar
que tambem desesperamos.
Não sou dos mais entendidos
(sei até bem pouco, mesmo)
mas fica ambíguo, perde-se o sentido.
Deveria ser escrito com hífen:
Des-esperar. Claro. Transparente.

As ruas são só ruas,
nós as tornamos em caminhos.
Nós fazemos os mapas e lhes damos nomes,
homenageamos uns e esquecemos outros,
vemos oportunidades em seus desconhecidos
ou manjados destinos.
Mas nunca teve a rua pretensão
de ser mais do que concreto, asfalto,
tinta e apoio para pés e pneus e cascos.

O que penso
não passa idéias já velhas e caducas,
já marcadas e já batidas,
sem grandes novidades ou renovações,
mas que fazer
se são elas que tornam minhas esperanças
em ações que valorizo
com a honradez de uma maquina programada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A morte e a morte

Acordou e sentiu o dia normal.
Olhou pela janela, viu os carros,
sentiu que o sol estava mais forte
do que costumeiramente, ainda que frio.
E no fim das contas, por que mesmo tinha que levantar?

Para ver acontecer,
para ouvir motores a combustão,
para movimentar as pernas,
tornar útil o esquecido nariz (talvez entupido),
chorar de saudade da terra-mãe que nascera,
crescera, amara, vivera e acabara por mudar-se.

Mudou de casa,
mudou de ambiente, mudou de cidade.
Não mudou de nome. Faltou coragem, talvez.
Mas era preciso?
Mudou seus hábitos
e se esqueceu dos antigos.

Lavou a alma nas cachoeiras em Pirenópolis.
Várias vezes.
E mesmo que lhe doessem os ossos,
sabia nunca se arrepender do frio das águas guiadas pelas rochas.

Compôs músicas medíocres
e nunca soube de escalas,
nem lia partitura.

Mas ia vivendo, vivia como se tivesse
inventado o mundo.
Embora gostasse de companhia,
seu próprio mundo lhe era suficiente.
Até o dia em que morreu.
Levantou-se, então, olhou tudo que tinha feito.
Trabalhos comunitários, estudos, pé-de-meia,
esteve em paz consigo mesmo.

Não aguentou, chamou o velho corpo de volta,
já carcomido e zumbizado,
vermes gordos e bem alimentados.
Tomou um banho, reanimou-se.
Queria mesmo era morrer no mar,
e foi. Pulou no meio da tempestade,
de uma jangada de não mais que 15 pés.
O mar era bravo, impetuoso.
Quem sabe se morresse ali
não renasceria peixe, tubarão
ou qualquer coisa 
que fosse capaz de seguir instintos,
nada mais.

O homem fez extintos seus instintos.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Muito prazer, Danilo!

É engraçado de repente querer escrever e tudo formigar. E minha idéia, diabo, por onde anda? Tá por aí, cata-se pelo chão e que se foda. Já faz tempo que quero dizer isto, e mais para mim mesmo. Que se foda, porra. Eu, cheio de achismos, cheio de querismos, cheio de pensismos, tudo pra puta-que-o-pariu. Quero agradecer meus amigos pela paciência. Quero dizer que o futuro que venha, que nem me preocupo mais. Quero contar alguma idéia besta que tive a respeito de um livro de um autor que nem mais consegue controlar seus próprios personagens. Pensa só, torna-se um refém do que sua mente criou. Quero informar que me cansei de querer dizer coisas que acho bonitas. E por que não dar um tempo em tudo isto mesmo? O grosso de tudo que deveria ser dito já foi dito, e não vou ser eu o revolucionário nas palavras. Não vou romper idéias, escolas, técnicas, nada. Vou dizer o que um peito dolorido berra em voz tão baixa que mesmo eu corro risco de nem me ouvir. Mas está aí, quem sabe serve de algo, no fim das contas?
Quero é aproveitar mais a vida, cada nuância, cada tudo que tudo contém, diferenciar tudo e me atentar a tudo, ouvir tudo, acabar com meu preconceito, ser inconsequente e me recompor, preciso disto, é como oxigênio, é como a comida que como, é como lugares que conheço e saio com a nítida impressão que jamais terei a mesma sensação novamente. Tudo tem que ser novo, por mais velho que seja. Minha retina deve se desacostumar com o costume de ignorar tudo. Meus ouvidos têm de reconhecer os tons e semitons tristes e alegres e as palavras de todos, do mundo, até mesmo de comerciais babacas de TV. Minhas mãos, quem sabe, cumprirão seu destino de me complementarem o que digo e o que sinto, serão mais sinceras que minhas palavras, mais sensíveis do que música de amor do Chico.
E para não perder o tom do início, pra puta-que-o-pariu essa vontade de ser o que não tenho vontade. Não posso ser também outro, eu sou eu e um dia, com sorte, paro de me comparar. Pro diabo se não sou tudo o que quis, se não me esforcei pra ser nada, se nunca passei de uma farsa. Sou o que sou agora, não mais que isso. Não me cobrem mais, nem eu hei de fazê-lo (assim espero). Um grito, um desabafo, era isto, em verdade. Chega de prosa em poesia e poesia em prosa. Minha prosa é aqui, direta. É prosa. Poesia é poesia. Pelo menos assim é assim que eu consigo escrever.

sábado, 2 de abril de 2011

Escambo

A fim de que a vida fosse algo a mais
vendi minha casa a troco de bebida,
vendi minha bebida a preço dos olhos,
troquei meus olhos
por feridas superficiais,
comprei com tal sofrimento
um sobrado velho
no centro abandonado
de uma cidade fantasma,
onde espero conseguir
em algum lugar algum whisky abandonado
para trocar pelo que perdi
quando ganhei de novo
meus velhos olhos (agora secos e cegos)
que ocupam o vazio
onde deixei que me levassem
aqueles íntimos segredos
como amores de infância
para o cemitério
onde vão as melhores lembranças.

E por fim, ainda me roubaram
as verdades escondidas nas mentiras
que disse para comprar dos outros
as almas, e trocá-las por nada mais
do que algumas palavras bonitas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Por onde estive

Descobri que o mundo
não foi feito para ser o que sou,
mas que eu sou feito para ser
do que foi feito o mundo.
Tratei meu ego a pão-de-ló,
dei do bom e do melhor,
e ele cresceu,
tomou proporções
que eu não sabia como conter.

Que bom que a gente
foi feito de dor atrás de dor
para podermos arrepender,
para fazer da dor o nosso cais
e saber onde exatamente
nossa fundação é mais firme.

Mas a dor de doer noutrem
sabe ser grande como uma supernova
explodindo em seus raios ultra-violentos.
Tanta palavra e tanta convivência
incapazes de provar o óbvio
pelo simples fato
de os fatos não o comprovarem.
Desculpas, de que adiantavam?
Fiz por merecer duras palavras e cruéis sentenças.
Passei a não exisitir,
e se ainda fiz disto uma criação
foi sacanagem
e desmerecida pelo prejudicado.

Tola, que garantiu confiança
a um pé rapado qualquer
que jamais soube qual seria a hora certa
entre o tapa que desperta para a realidade
e o abraço da melancolia,
o beijo do amor,
o escarro do ódio
e o olhar de perdão.

Perdi o bonde na  rua
no momento em que tudo esfriava,
e caía neve nos arredores
do planalto central.
Era eu, longe de tudo,
especialmente do que me compunha,
dos sentimentos que me descreviam,
das amizades que me contornavam;
virei fumaça, nada mais.

Peço que se algum dia
sentirem o que eu senti
repensem: é aqui mesmo
que eu quero estar?
Abri mão do que mais amava
em troca de trinta moedas de ouro.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Eu, eu mesmo

Hoje me senti bem. Estava sentindo algo que eu havia esquecido alguns anos atras e que mal sabia o sabor. Me senti bem dentro da faculdade, assisti a uma aula que nao gostei com algum pos-doutor sabido. A aula era chata, sem duvida. Didatica zero. Mas ainda assim a sensacao foi muito boa, de verdade. Talvez uma nostalgia, talvez a impressao de que o ano realmente comecara. Deu vontade de ligar para varias pessoas, mas como sempre, nao liguei. Queria contar que estava feliz, e as pessoas perguntariam: "serio? Que bom! Mas por que esta tao feliz?" - e exatamente ai meu plano falharia. Jamais saberia explicar por que e com certeza a conversa agora passaria a ser constragedora, com pensamentos quebrando as vozes em silencios compassados e transparentes. Ate mais transparentes do que se dissem: "endoidou".
Loucura ou nao, me senti como que aliviado, como se estivesse cercado de amigos em um momento dificil. Sei que poderia contar com todos eles, mas o dificil mesmo e' contar comigo. Desconfio de mim a todo momento. Cada segundo minha energia se divide em duas: manter-me vivo biologicamente e me policiar - se nao eu, quem mais? Sinto que devo comecar a ler outro livro, algum Erico Verissimo ou algum classico mundial, algo que me deixasse tao confiante de minha cultura que me fizesse esquecer de mim mesmo, desse policiamento ditatorial.
Divagacoes a parte, me sinto feliz pelo dia de hoje. Trabalhei, criei um pouco, refiz as pazes - pelo menos por enquanto - comigo mesmo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Incontido

Cansei da minha hipocrisia
e de minh'alma lavada,
meus pecados perdoados,
nao sou assim,
nao mereco perdao nem respeito,
nao passo de um trapo,
um Eugenio que se deixou perder
por um punhado de tostoes.

Quanto mais me pergunto
por que eu tenho que ser assim
mais me afasto
do homem que costumava ser.
Onde esta minha familia?
Cade meus filhos e meus planos?
Diluidos em tantas outras preocupacoes
que nem me lembro mais
se sou Cavalcante ou se sou Oliveira,
ou Silva
(acho que nenhum).

Sinto o amargo da distancia,
sei ate que os ventos e as estrelas
sao os mesmos onde quer que os sinta
ou os veja,
mas isso nao basta.
O calor se perde no caminho,
as vozes se perdem,
o brilho esmaece e o opaco predomina.

Tudo que eu nao disse
hoje resolveu dar brecha
e apontar meu futuro:
um tiro no escuro,
um alvo desfocado.

De que adianta tudo isto
se tudo que eu sempre quis
esteve tao perto da minha mao direita
que o seu calor me fazia suar;
tao frio que sentia nao so o tremor
mas a dormencia em meu corpo todo,
e tudo nao passou
de uma vontade de deixar tudo para o futuro
que o futuro se resolva
- e que se exploda, se for preciso -,
mas que nada me permita
perder este sentimento de culpa
que vem toda noite
se deitar ao meu lado,
ouvir meu ronco
e debochar dos meus sonhos.