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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Palavras amarradas

Tenho que tomar cuidado por onde ando! Todas essas almas partidas, espalhadas e despedaçadas pelo chão...Não há limpeza nesse local, pois as almas não são recicláveis! Almas mortas por montes de palavras frias e cruéis. Cirúrgicas! Palavras que, ora saíram sem querer, ora pularam para fora e não mais puderam voltar; palavras escapulidas num momento em que o mundo não cabe nos pulmões e costelas da pessoa que as profere; palavras maldosas e inescrupulosas, má-intencionadas, também.
Nuas, proféticas e herméticas. Todos hermetismos passam necessariamente por essas palavras, que ajustam tudo como querem. Podem dizer muito ou dizer nada, ainda assim, de qualquer forma, poderosas! Manipuladoras e mecânicas, com vontade próprias. Todas essas que me saem agora, saíram planejadas, combinadas. Nada é aleatório ou tem livre-arbítrio, com exceção das palavras. E agora, jazem essas almas sob meus pés, amorfas, irreconhecíveis. Conhecidas e desconhecidas. Todas inteligentes, livres dessas palavras. Sem vida, entretanto. Até que me sinto bem nessa situação. Regozijo uma vida presa, truncada, atravancada, mas, contudo, vida. Meus olhos constroem palavras que ficam presas no fundo da minha retina, tatuadas lá para sempre. Sons, cores, texturas, são como essas almas. Mortas, independentes.
E há, por cima de tudo, um coração que bate. Um coração que sente, que se arrepende das almas, tal qual vidros em estilhaços, partes de um espelho que nos traz a imagem cansada de nossos rostos, e nos corta com seus cacos, mas o brilho ainda nos emociona. Um coração que bate, e como bate, e como sente, e como ama, e como vive, pulsa, luta, regozija, exubera. Deixo sair as palavras que tornaram meu dia chato, intragável. Vão, e tomara que não voltem, eu as amaldiçôo. Mas são necessárias. Um dia hão de levar minha alma. Até lá, ainda darei muito trabalho a elas com todo meu silêncio e meus sentimentos, calados. Nem um pio, silêncio. Meu coração se acalma, e assim fica. Silêncio, silêncio...

sábado, 9 de agosto de 2008

Brado retumbante

Um dia qualquer, não mais importante que o dia de hoje, acordei. Não tinha água, não tinha luz. Nenhum passarinho. Nada. Fui trabalhar, trânsito. O dia agourento rapidamente me tirou o que havia de tranquilidade. O céu vermelho do crepúsculo no outono trouxe à tona o ódio de tudo que eu tinha, um ódia também escarlate.
Uma lágrima escorreu pelas minhas bochechas. Caiu na minha mão, que coçou. Foi o estopim: gritei, esbravejei, clamei, xinguei, maldisse, bradei, praguejei, berrei, vociferei um som tão comprido, alto e destrutível que se calaram os arredores, os carros da rua, os prédios, para escutá-lo. Pararam as indústrias, as cidades vizinhas e transmitiu-se o grito ao mundo pelas antenas de rádio e TV. Tamanha cólera chocou o mundo, e fez-se a paz no Oriente Médio. Pararam de brigar famílias, gangues e máfias. Não houve inverno, que fugiu envergonhado, dando lugar à primavera. Foi a única vez que a fúria transmutou em amor. O mundo nunca mais foi o mesmo. Foi um só dia, mas foi o melhor dos dias.

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Texto escrito ainda em 2006, só estou copiando do antigo papel que aos poucos se amarela, ainda que meus pobres olhos não possam perceber.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Um texto de não-sei-quê

Se não é a morte que nos assusta tanto, talvez seja a vida, pois!
Passo um bom tempo a assistir vídeos, clipes, ouvindo minhas músicas favoritas, sendo que uma boa parte, possivelmente, duas, três, quatro, cinqüenta, cem vezes mais velhas do que eu.
Me fazem pensar em tanta coisa, e muitas vezes perco bons pensamentos acreditando que começo a pensar outro melhor, mas aí o antigo, depois que percebo sua qualidade superior, me foge como foge um peixe, esguio, de nossas mãos ao tentar tocá-lo.
Assisto a várias bandas que meus pais ouviam, ouço-as com ouvidos novos, embora sejam sons antigos. Sons que possivelmente começaram a mudar o mundo antes mesmo que eu começasse a me entender como uma alma que se preparava para adentrar a penosa, porém não menos agradável, vida terrena.
Vejo tantos mortos que me comovem, me movem, mudam a batida do meu coração, e mais além ainda, mudam meus passos ao caminhar. John, Freddie, George, Syd, até Elvis, dentre muitos outros. Vejo lugares que nunca estive, mas sinto como se de lá emanasse parte da energia que me sustenta como ser ativo de algum restrito meio cultural do qual tento fazer parte e do meio social ao qual tento convidar muitos.
Não sei bem qual foi o meu intuito ao escrever isso, mas me saiu de modo que minhas entranhas não suportavam todas essas palavras juntas. Talvez fosse uma homenagem à grandes defuntos, que agora pagam pela vida que tiveram, como um dia hei de pagar, e, assim, toda minha energia esvair-se-á de modo que, no sono eterno, estarei preso não mais a um corpo, mas a uma forma estranha de energia que foi sinceramente criada, recriada, descomportada, divulgada e transferida por honorários defuntos ou pré-defuntos, onde leis e físicas não se aplicam, onde o som é, sim, uma onda, uma vibração mas que tem muito mais a ver com coração que com meio de propagação.
Seres propagantes somos nós. Em propaganda veloz ou até mesmo na mais lenta, porém duradoura, levamos adiante a fim de talvez lembrarmos de nossos tempos, quando vagarmos sem rumo, talvez fátuos, talvez disformes, levianamente descuidados com a realidade dos vivos, nos assustando cada vez mais com essa vida, cada vez mais preocupada com coisas que, no nosso tempo, e nos de nossos antepassados e dos sucessores da presente geração, não pode nos fazer nenhum sentido, e assim, dizendo sempre a frase: "no meu tempo..." - um tempo que jamais existiu, não fosse pela dubiedade que nos obrigamos a nos expor, esquecendo-nos que o nosso tempo não é nosso, mas, de alguma forma, devemos muito a quem tenta construí-lo, esses nossos defuntos, moribundos ou não, pioneiros ou não, mas que nos marcam, levam nosso presente a quem, um dia, o achará estranho, aceitando-o por quê, afinal de contas, tudo tem sua beleza.