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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nada do que eu pensava

Passado o susto, viu que era ele quem tinha morrido. Olhou para os lados e viu seu corpo em pedaços. O desespero voi tão avassalador quanto manadas inteiras de hipopótamos (se é que se chamam manadas). Mas aí se deu conta que só poderia mesmo ter morrido. Não era fantasma, não era zumbi (para tristeza de muitos), não era alma penada, não era anjo e não estava em nenhum caldeirão. Foi atrás de outros mortos, seus bisavós, Mozart, Hitler, Lênin, Adão, Elvis, nada. Não viu ninguém, não podia gritar e nem tinha a quem pedir informação. Olhou um relógio que estava por ali e viu que ele andava muito mais rápido que o de costume. Se bem que, até onde se lembrava, não se lembrava de olhar muitos relógios. Era só uma consciência. Seu corpo deixara de existir e foi apropriado por outros vivos. Pelo que se lembrava, eram legistas. Começaram a sumir as palavras. Os idiomas das pessoas começaram a deixar de fazer sentido, embora agora conseguisse compreender um pouco da antiga escrita persa e também hieróglifos. Não notara até então, mas aqueles relógios estavam passando as horas no outro sentido. As horas voltavam, e não percebeu. Foi voltando o tempo e se acelerando, viu os romanos em sua gloriosa queda, depois seu ápice e depois sua ascenção. Viu Alexandre, o Grande, a passear pelo oriente médio, depois domando Bucéfalo. Viu os super-répteis e viu surgirem as primeiras vidas macroscópicas. Eram fascinantes. Voltou o tempo, todo o universo, ainda pequeno, até sua grande explosão. Daí tudo ficou preto. Acabou. Essa era a vida após a morte: uma breve história do tempo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Passagem

Sentia-se velho e estava atado a todo tipo de amarras: seu corpo estava sufocado pelos tubos, sua mente pela morfina e sua alma pelo medo do que se seguiria àquele dia - provavelmente, sentia, seu último. Ouvia o lento barulho do medidor de batimentos cardíacos ao seu lado soltando sons infernizadoramente agudos para um velho, mas tinha ouvidos catarados e quase não ouvia nada - o que não deixava de ser um murmurinho incômodo. Não entendia nada do que estava acontecendo, na verdade. Seu cérebro tinha plena consciência da doença, sabia quais eram as causas e o que danificava seu corpo, tantas vezes os médicos lhe explicaram, mas a mensagem se perdia em algum caminho e os leucócitos agiam de forma totalmente irracional. Já tinha tido uma parada cardíaca e até tinha morrido, mas ressucitaram-no. Lembrou-se da morte. Na verdade, só lembrou que tinha morrido, por que da morte em si, nunca poderia se lembrar. Essa era a lei, esse era o combinado. Mas isso o dava ainda mais medo. Se não se lembraria depois, era como se viver já fosse a própria morte e morrer seria morrer para sempre, mesmo que se voltasse depois. Pensou naquelas malditas bactérias manifestando-se, seres de milionésimos de milímetros fazendo chorar de dor um homem de um e oitenta, forte outrora como um touro. Ouviu os médicos chegarem, estudarem o caso e conversarem, mas as conversas não faziam muito sentido, nomes estranhos e uma dose de morfina ainda recente circulando seus vasos podem distorcer muitas palavras. Ficou com preguiça de ouvir tudo aquilo. Ficou com preguiça de ver as coisas como elas não são. Em outros tempos, daria tudo para ver o mundo sob a psicodélica ótica da morfina, mas agora parecia que entupia-se de lixo. E lixo é o que jamais deveria ser, é o que jamais seria.
Parou. Parou de bater, só havia o barulho constante do medidor de batimentos, nada de pulsos, de sons intermintentes. Entreolharam-se os médicos, estupefatos, não entendendo nada. Estudavam aquele caso como uma recuperação estupenda da doença em questão, nunca antes vista, e de repente, sua cobaia falece sem nem ao menos dar explicações. Um minuto antes, nosso bom velho tinha a mente longe. Viu que a vida não passava como um filme. Na verdade, só passou uma cena em sua cabeça: uma imagem falsa do homem pisando a lua, totalmente criada por sua mente. Nada mais. Depois se lembrou de como achava que as pessoas morriam quando era criança: levantando as mãos e rodopiando e se balançando até caírem no chão mortas. Achou que seria divertido. Levantou as mãos, se contorceu todo e desistiu de viver. Parou, parou de bater. Jogou fora o resto de seu sofrimento apenas desisitindo. Finalmente seu corpo entendeu os sinais conscientes de seu cérebro.
Dom Pedro Álvares Cabral  de Alcântara Orleans e Bragança descobriu a independência do Brasil no dia 22 de setembro de 1500. Foi quando disse a seguinte frase: "se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digo a todos que esta é terra em que se plantando, tudo dá". E às margens do rio de Santa Cruz com sua caravela encalhada (o rio não era mar - era grande, mas não era fundo) deixou-nos independente de sua sub-colônia: as Índias.
Apesar do que dizem, não era português. Espanhol de nascença, marujo de coração, fidalgo de título e rei por obrigação, sentiu a necessidade de firmar-se como Imperador do Reino Unido de Portugal e Algarves sobre um de seus três barcos de lazer (ainda depois seriam conhecidos como "iates"), Santa Maria, Pinta e Nina. Viveu no mar, morreu de mar, embora não se saiba ao certo a causa de sua morte. E também de ano incerto, já que não há nenhum remanescente da viagem (tragédia tal que as damas lusitanas fizeram o Tejo de suas lágrimas), mas provavelmente foi em algum ano entre a republicação proclamada ou reclamação da procública, não me lembro bem, e a declaração dos direitos universais - guerra sangrenta sem antecedentes (criminais).
Em sua última carta, sabendo iminente a tragédia, escreveu: "saio da vida para entrar na história. Aqui jaz um navegante que sempre teve medo de mar. Navegar não é preciso."

A professora teve de reconhecer: ele não sabia nada de história, mas merecia pelo menos um sete pela criatividade. Foi para casa feliz: era a primeira vez que tirava um sete em toda sua vida.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Poeta Está Só II

I

O poeta é só quando é poeta, porque também acontece de o poeta às vezes ser gente como a gente, ter pele e ter osso, sentir fome e vontade de fazer sexo.
Quando o poeta sobressai ao homem, porém, é que as coisas acontecem. É quando as vontades que existem se tornam insuportáveis dentro do corpo, e é aí que se tenta satisfazê-las. Por que o homem sente, mas o poeta sente só. só sente. Só.
O homem sente fome; o poeta come. O homem sente saudades; o poeta chora. O homem ama; o poeta conquista o amor. O homem sente orgulho; o poeta comete crime passional. O homem pensa, mas quem escreve é o poeta.
Basta estar só para se ser poeta. Basta esquecer o resto do mundo se concentrar no homem. O homem é impotente, o poeta é imponente. A poesia é a personificação da solidão.

II

Acordou, sem saber por que, sentindo-se poeta. Sorriu, e havia sol, e havia tudo que caberia na métrica bem arranjada de uma bela poesia. Era poeta. Parecia que os sentimentos não lhe cabiam, e todos detalhes saltavam-lhe aos olhos, mágicos. Precisava compartilhar tudo aquilo com o mundo. Tantas maravilhas assim tão perto das pessoas, que imenso egoísmo seria guardar isso para si. Sentiu que, de certo modo, pertencia ao mundo, era uma de suas células. E era essa sua função: mostrar a beleza de todas as outras células. Podia falar de qualquer coisa, as palavras gostavam de esparramar-se pelos papéis cuidadosamente versificadas entre os inúmeros poemas que brotavam-lhe de onde quer que seja que estavam saindo. Sentiu intimidade com aquelas folhas e toda aquela tinta esperando elucidar o mundo com suas visões incríveis.
Perverso, o mundo não queria ser elucidado. Ninguém viu o que ele mostrara, não houve interesse, nenhuma reação que não fosse a falta dela. Ele reclusou-se na sua intimidade, reprimiu suas visões, que agora eram inúteis. Ele estava só. Ficou dividido entre a vontade de chorar e a vontade de não reagir. Talvez entrar num papel e viver eternamente como um outro poema a ser compreendido no futuro. Mas não, nada disso. Apenas foi dormir. Acordou, não era poeta. Sorriu, e havia sol, e havia tudo que caberia na métrica bem arranjada de uma bela poesia. Mas não fazia diferença. Foi tomar um copo d'água, antes mesmo de escovar os dentes (por que sentia tanta sede?). Ele agora era homem. Sabia que em outro lugar qualquer, haveria um outro qualquer bebendo água. Não estava mais só.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Jeito de Falar

As palavras foram penetrantes. Não fazia ele o seu tipo usual, mas de repente, pareceu a ela extremamente sensual. Tudo por que soube dizer as palavras corretas, naquele exato momento, com aquele exato tom. E o jeito como movia os lábios, assumiam um caráter mais carnal como o de costume. Toda a paixão entrou pelos ouvidos, e com ela todos os desejos. E tudo se transformou num calor que subia por meio das pernas, e um arrepio como que a acariciando os seios, chegava numa forma de falta de ar pelo pescoço, que, por sua vez, esperava um toque úmido de lábios. Ah, mas também foi aquele olhar de quem via sem olhar, ou de quem olhava sem ver, que trespassava qualquer carne e osso - principalmente a carne. O movimento dos olhos era como um tango, e tinha o calor do tango. Tinha a sensualidade do tango, mas com um leve tom de valsa, gracioso. E aquilo fazia-a subir pelas paredes. Já se colocaria despida ali, sensualmente, abriria um sorriso discreto, se aproximaria até o ponto em que ambos pudessem sentir a falta de respiração, a entonação falsa das vozes cobertas pela libido, mas no fundo sabia que não era isso. Aquela vontade passaria em alguns minutos - o quanto durasse o orgasmo. No fundo sentia que essa vontade era superficial. Preferia os pensamentos vazios e profundos aos desejos frívolos e profanos. Ele, do outro lado, nem sabia o que se passava, e o que tinha perdido. Seria a melhor de todas suas noites, mas agora não fazia mais diferença. Era um passado que nem chegou a ser cogitado como futuro.

sábado, 24 de outubro de 2009

Tirem Seus Chapéus

Meus caros, tirem seus chapéus! Méritos, haviam. Tinha seus defeitos (e nem sei quais são), mas que foi importante para sua época, foi. E sua época hoje ainda é. Merece todo meu respeito, e garanto que nunca me classifiquei como um fã, mas respeito, de minha parte, sempre houve. Não é meu estilo, não me identifico, mas mesmo assim, é unânime. O mundo aplaude, e não sou tão controverso ao gosto popular assim. Aplaudo tímido, demonstrando todo meu respeito.
Mas aí vêm estes chapéus lhe cobrir o respeito. Pessoas em tom tão cotidiano cobrindo cabelos como se dançassem algo à altura. Aqueles chapéus como que nos lembrando sua imagem e semelhança, mesmo que saibamos que este mundo não compartilha os seus desejos, nem sua carne. Malditos chapéus, será que lhe fazem descansar (em paz)? Maldita seja a moda que nos faz mais importante em nossas roupas do que em nossa vida. Nos vestimos a todo tempo de vida e algo mais, como os sentimentos, as músicas, os filmes e todas as outras 10 artes, para, enfim, sermos despidos por algo que nos veste.
Perdemos nossa pompa de pop musical, perdemos nossas cores e nosso respeito (mesmo que todos nos admirem) por, ao fim, cobrirmos algumas cabeças.
Chapéus não são moda há algum tempo. E agora querem voltar com eles. O que Michael Jackson diria deles?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Combinações

É tudo uma questão de escolha de parâmetros. Os dizeres podem ser de dois tipos, e não mais do que isso: os bem ditos e os mal ditos. Assim, separados mesmo. As palavras são limitadas, mesmo que se reproduzem e se recriem muito, são limitadas. Basta dizer corretamente. Assim são feitos advogados, vendedores, compradores, poetas, corretores, juízes, políticos, politiqueiros, golpistas, cafagestes, malandros, sambistas, gente de toda classe de pessoas.
Se a maior arte de um escritor é saber dizer tudo aquilo que está estampado, roçando narizes e acariciando as vistas encataratadas e que não se enxerga, ou então fazê-lo de um jeito todo novo, basta que se escolha a combinação certa de palavras. Mas talvez isto seja como as notas de um piano. São só 88, mas já saíram de seus ventres filhos nobres como Chopin, Beethoven, Mozart e mais alguns muitos outros gênios, com combinações de teclas e notas das mais diversas. Também por isso muitos se passam incompreendidos, já que inovam tanto que mal o mundo os consegue enxergar.
E eu, que muitas vezes já maldisse as palavras, agora as elogio. Sabem muito bem se esconder quando mais as queremos. Isso é de certa forma um charme. Não é sempre que estão disponíveis. Se fazem de difícil e às vezes nos fazem dizê-las nas horas mais inoporutnas, como aqueles "obrigado" que nos saem à toa. Sim, eu as maldisse pois as acho falhas. Mas tudo bem, são o que temos, e servem para quase todos os casos. Mas se queres saber de sentimentos, perguntes tu aos olhos. No fundo eu as amo (as palavras), mas que tipo de homem seria eu se também não me fizesse de difícil? Não é todo dia que estou para escrita!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

É o tempo

E quando achamos que não há mais nada neste futuro tão próximo, acontece algo. Nos sentimos impotentes e em geral realmente não podemos fazer nada. Somos mesmo donos de nossas ações? Não me entendam mal, acredito piamente no livre-arbítrio. Nada de determinismos. Mas é que às vezes parece que sempre que queremos algo, tudo sai ao contrário. Por que não tentamos fazer tudo diferente do que queremos, que talvez dê enfim certo.
Ai, se não é o cansaço a me fazer pensar novamente! Não há o que se fazer quando não há de se fazer nada, mas sempre nos sentimos como que devendo algo a todo o tempo. E procuramos o que fazer nas vagas horas em que o tempo se ocupa em preguiçar. Hoje o dia tinha prosa no ar, não pude evitar falar essas coisas. É assim mesmo, o tempo é preguiçoso. Deixa tudo - igual ironia não se há de achar - para última hora. E aí corre quando não deve. A passos largos, ele anda tão apressadamente quanto uma lesma corre do sol para a sombra que lhe evita secar.
É aqui que abandono o sono e deixo as luzes acesas. Por que é de noite que as músicas urbanas e barulhentas vêm dançar e nos assustar com suas sombras assombrosas. Se parecer-lhe um tanto psicodélico, é que me escapa esse lado involuntariamente. Acho que Alice deu-me banhos inteiros de lisergia. O que tem tudo isso relacionado com o começo deste dedo de prosa? Existe algo mais lisérgico que o tempo? É assim: o futuro acontece a todo momento em que o presente deixa-se tardio e se reconhece passado - o que em geral acontece entre os menores intervalos de tempo (que se pode medir). O presente é tão pequeno que nem deve ser considerado como um tempo. Tudo que se pensa ou é passado ou é futuro, e não há como não ser. Quando pensamos em algo do presente, já foi o tempo. No entanto, é sempre o que se vive. Vive-se neste intervalo tão pequeno que logo deixa de existir, mas é só o que realmente existe - é sempre presente!
Vá lá entender... uma boa conversa sobre nada faz-se necessária. Tanta filosofia barata em tão poucas linhas é algum sinal de um sonho no mínimo diferente, mesmo que se venha a dormir tão poucas horas. Por que quando dormimos, com certeza o tempo se atrapalha todo e nunca se dorme o suficiente. Mesmo quando se acorda atrasado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Hora de se Dormir

Eu gostaria de ter todas as idéias que tenho em meus sonhos, ou mesmo as que tenho quando estou simplesmente deitado. Surgem idéias de todos os níveis, tão boas como as que nunca mais escreverei. Mas estou tão cansado para me levantar e escrever, ou então amanhã tenho que me levantar tão cedo... Sei que talvez eu fosse até um bom escritor se pudesse eu recordar-me tudo que tive de idéias.
Mas aí vem um outro dia, tenho que pensar em mil coisas, e deixo um de meus amores para a noite mais densa, para a hora mais alta, onde a escuridão é trajada de uma inspiração imaculada, tal qual a que se teria após uma jornada de um mês no lado escuro da lua. É aí que tenho os sonhos mais interessantes (talvez). Queria eu ter a força de vontade de Dalí, que pintava os sonhos mais surreais (com o perdão de algum trocadilho que possa vir a surgir) ao deixar-se despertar de um sonho. Queria eu, em verdade, me dotar de grandes idéias, mas tudo que consigo são palavras falsas e promessas do que jamais vou vir a ser.
O estranho é que ainda me fascino pelo fato de acordar. É como se me sentir vivo trouxesse aos meus sonhos mais intrínsecos e profundos um novo caráter, adquirido aos poucos dentre os míseros intervalos entre os segundos. Por que tenho absoluta certeza de que não sou hoje o que fui a um ano atrás. Se sou melhor ou pior, não me basta que eu me julgue, pois será este um julgamento sempre deturpado. Mas o fato de sonhar e acordar me faz querer dormir uma outra noite, a fim de me descobrir em algum sonho, e o fato de eu acordar, me faz realmente me redescobrir, me faz olhar com outros olhos o simples fato de que no dia que desistimos de acordar é o dia que morremos.
Talvez seja isso a morte: um sonho tão bom de se sonhar que nos esquecemos de acordar. É também uma boa perspectiva para um pós-vida, para alguém tão pouco religioso que sou.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Não deixa de ser mais do mesmo

Ficou determinado que tudo que se escreveria deveria ser sobre amor, da sociedade, críticas, intimismos ou estudos. Talvez eu também gostasse de escrever sobre o botão da televisão - que eu nem tenho - que está quebrado. Ou como o dedo quebrado me atrapalha a tocar o violão. Tenho uma internet estupidamente rápida, mas nem tenho forças para escrever sobre coisas tão cotidianas. Até que deveria ser fácil, mas daí seria difícil criar alguma expectativa ao leitor.
Em contraste a tudo que eu disse aqui, parece que voltei para a minha problemática inicial, indo de encontro a alguma crítica que eu faria. Critiquei, estudei e falei de mim mesmo. São, então, três crimes. Para reduzir a pena, falarei do dedo quebrado. É realmente estranho como não poder mexer o dedo atrapalha coisas tão banais, como digitar um texto, usar talheres ou mesmo escovar os dentes. E olha que foi um dedo que só serve para pôr anel. Nem para ser o dedo que manda alguém à merda. Pouparia trabalho, pois ele já ficaria ereto.
Mais um pouco de palavras, e mais um crime: mais uma crítica. É que também fica difícil ser do tipo resignado, que não fica do lado contrário na maioria das vezes se uma das coisas que nos diferenciam dos animais são os polegares opositores. Já nascemos para ser teimosos. Vou parar por aqui, que já estou condenado a uma vida inteira de textos sobre as mesmas coisas. Quero ainda me redimir para a próxima vida.

sábado, 5 de setembro de 2009

Alcebíades Vaz de Carvalho

Acordou morto. Obviamente que não acordou, pois estava falecido, por assim dizer. É só que amanheceu o dia e estava lá, prostrado na cama já com alto sol - e ele, então, que sempre acordou antes das 5. Totalmente inesperado. Sem sinais de doença, ataque fulminante, cataclismos nos pulmões, edemas, e muito menos derrames. Parecia uma vida que tinha mudado de idéia. Simplesmente tomou o outro rumo - o oposto.
Era daqueles que sabiam usar o tempo. Tinha uma boa empresa, no cafundó de algum interior. Custo de vida barato, simples, era conhecido e respeitado na cidade. Usava um chapéu e, apesar da simplicidade, detinha bons capitais. Saía de tarde da empresa, encontrava alguns funcionários para uma cervejinha. Aos finais de semana, um futebol com os diretores da empresa. Nas férias, viagens breves e bem aproveitadas para o exterior.
Não se sabe como e nem onde, endividou-se. E aí deixou morrer-se. Nunca deixou ninguém saber - confiavam nele. Ele adorava que as pessoas se apoiassem nele. Mas os que sabiam ser amigos. E, sendo o ágio extremamente ágil, faleceu de maneira que os Sicilianos de Puzo sentissem inveja dos projetistas de tal arquitetura.
Uns, diziam, com todo o pesar que sentiam por quem os tinha acolhido, algo meio que assim: "Abutuô o Palitó. Por quê é que dexô a gente sem nem avisá? A gente fazia uma dispidida bem bunita". E até podia se ver um brilho ocular seguido de um filete de água que lhes caía das vistas. Outros, enquanto isso, diziam: "Veio a óbito nosso saudoso amigo, dono não só de patrimônios, mas de corações. Devemos agora continuar seu sonho, redividindo a empresa, fazendo-a crescer como ele gostaria de ter feito em vida". De modo todo cerimonioso e solene, como um locutor de rádio que anuncia alguma morte. Uns, tomavam com ele cerveja. Outros, jogavam futebol. Uns, nem sabiam falar corretamente. Outros, só sabiam de cerimônia - que, neste caso, é sentimento só para inglês ver!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Caixinha de Surpresas

Eu estava ali sentado, naquele ônibus (que por acaso estava atrasado), e toda aquela chuva a deixar o dia cinza continuava a contaminar a clareza das nuvens brancas e o céu todo azul acima delas. Dei sorte, havia um lugar para eu me sentar. Daqueles que é de uma poltrona só, ninguém se sentaria do meu lado. Eu só queria escutar música, curtir a melancolia deste dia. Escoro na janela, sentindo o vento gelado (eu estava sem blusa de frio) penetrando por todas as frestas. Dou um olhar rápido como quem não quer nada, e vejo algo que me agrada. Pensando bem, até me tirou a amargura daquele dia. Até que os dias cinzas também podem ser bonitos...
Ela tinha cabelos curtos, louros, mas não de um tom cansativo, e sim uma profusão de louros, uns mais claros, outros menos claros, nada muito chamativo. Pareciam discrição. Mas logo percebi também as curvas. Fui descendo o olhar dos cabelos, e vi uma nuca que ensaiava um aparecimento, mas bem discreto. Parecia também bem macia, e que se arrepiaria toda ao mais leve toque. E tinha também aqueles ombros delicados, sem nenhum excesso, cobertos por uma blusa preta, ou camiseta - só me lembro de ser preta, e tampouco sei diferenciá-las. Um pouco mais abaixo, possuía uma vista agradável. Aprazível, eu diria. Tudo muito bem coberto por calças xadrez de tonalidade cinza, e ainda mais abaixo, um All Star branco.
Sabia que era isso que eu queria, afinal. Eu sabia que se eu cantasse para ela "try to set the night on fire", ela revidaria alto e bom tom com um "come on baby light my fire", e tudo afinal acabaria com "lingers long on love street". Ah, seria felicidade. Uma beldade como aquela com uma cabeça muito acima do próprio umbigo, e o nariz apontando para frente, e não para cima. Alternativo, mas sem ser demais. Só não precisa ser exagerado, sei lá. Precisa ter algo diferente, mas sem ser contra tudo, sem radicalismos. Parecia tudo tão perfeito...
Até que ela se virou. As mulheres que me perdoem por ser tão superficial, mas acabaram-se todos meus planos. Era tudo tão perfeito, por que não poderia ser bonita? Não fazia meu tipo, tinha cara de carrancuda e de poucos amigos. Parecia ser bem alternativa. Do tipo excessivo. De poucos amigos, e intolerante com idéias diferentes. Não tinha bons olhos para as coisas, talvez algo a fizesse odiar o mundo todo. Ou talvez seja meu preconceito - que tento me livrar fortemente. Mas não me agradou. Me levantei, desci um ponto antes (que diferença faria andar uns 30 metros a mais?) e fui andando. O que mais poderia esperar eu de uma chuva tão feia?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Cor do Objeto

Eu poderia começar este texto de várias maneiras. A primeira e mais convencional é expondo uma idéia ou algum personagem logo de cara, explicando o que será a história, desenvolvendo-a e dando um fim a ela. É antigo, mas funciona. Seria assim:
"Ainda bem que peido não tem cor. Imaginem só, como seria? Nossa privacidade a todo momento de flato invadida." Daí eu falaria de como tudo seria injusto, mas em certo momento questionaria se é tudo aquilo que eu teria falado, e, no entanto, ao final, eu teria concordado com a minha idéia inicial.
Bom, eu poderia ainda começar de um outro jeito. Poderia ser um diálogo, e os personagens nem precisariam ser os convencionais. Poderia ser, por exemplo, duas nádegas conversando:
"-Eu vi isso, hein!
-O quê?
-Não sabia? Foi decretado que peido agora tem cor!
-Sério? Me fodi!
-Rá! Trouxa! Joguei verde, colhi maduro!"
E também me basearia na mesma idéia: a cor do peido.
Mas também poderia ter escrito um poema. Mas não falaria do peido logo no início. Primeiro eu reclamaria de algo. Da sociedade, por exemplo. Falaria de consumos, insumos, da mesmice, do niilismo, e no final, para amenizar, agradeceria a incoloridade do peido, faria um agradecimento solene à Natureza, ao(s) Ser(es) Supremo(s) e ao Acaso, cobrindo assim toda a gama de crenças.
Mas não é o início que torna um texto grande, um texto bom, um texto interessante - nem de longe tenho com este tal pretensão - e sim, o final. Pode ser um final feliz convencional. "Como o mundo é belo; apesar de todos os problemas, sou feliz - peido não tem cor". Pode ser um final filosófico, deixando no ar alguma questão relacionada ao tema: "não seríamos melhores? Talvez não precisássemos termos vergonha de nossos flatos, sendo estes, assim, coloridos, de domínio público?" E ainda questionaria a represália com relação aos nossos desejos naturais. Ou então - hoje em dia virou moda - o tal do non-sense. Eu diria: "Se peido fosse colorido e água tivesse cheiro, peidar n'água seria arma química!" Eu sei que ficou horrível, mas não tenho muito tino para non-sense.

Abriu a porta do banheiro, depois de 15 minutos de devaneios, estava a namorada à espera no hall, para acompanhá-lo à sala de jantar, onde o esperavam o sogro e a sogra, para serem apresentados. Maldita hora que tinha aquela vontade incontrolável de ir ao banheiro (número 2, para ser sutil). Tinha jogado o purificador de ar (famoso "bom-ar"), lavado as mãos, tudo cheiroso, nenhum rastro da "obra" - a não ser os 15 minutos de reflexão. Respirou aliviado e pensou: "ainda bem que peido não tem cor!"

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Línguas, o que dizem?

Vieram todas as línguas. Esta haveria de ser a maior confraria já realizada entre todas as línguas. Haviam papéis e tratados a serem assinados, convenções a serem assassinadas, colocar ordem em tudo desde que tudo ficou fora de ordem, quando da construção de Babel. Todas as línguas se entreolharam, procurando semelhanças, tentando se entender. Houve um tempo que a moda era cada uma ficar no seu canto, egoísta e cheias de xenofobismo. Mas aí os homens instauraram o que seria chamado de Globalização e lá foram as línguas tentarem se adaptarem aos ensejos humanos.
Chegou o Alemão, com toda essa pompa de imperativo, sempre parecendo com intenção de dar ordens, sem uma sonoridade agradável, mas cumpridora dos seus objetivos. Cheios de regras e de "não-me-toques". O Italiano, sempre do mesmo jeitinho, um latino garboso, falastrão, no bom sentido da palavra, sempre altivo e tentando se sobressair com tons elevados de voz e com uma sonoridade penetrante, bem arrastada. O Japonês, o bom e velho Japonês. Calmo, desde que tudo esteja em ordem. Explode com facilidade, e logo se recompõe. Mas sempre em staccato, dando fortes ênfases em suas consoantes. O Português, com seu tom de saudade e com suas infinitas conjugações verbais, o que lhe dá um ar um tanto quanto culto, rebuscado, e bem sonoro, também veio. Aliás vieram o Português português e o Português brasileiro, a fim de acertarem contas antigas. E assim vão chegando as línguas, com suas tantas diferenças e dificuldades de se acertarem e de se comunicarem.
Até que chega o Inglês. A noite é dele. Ele vai ser coroado a Língua das Línguas, título só dado até então para duas línguas: em 58 a.C. para o Latim e em 1789 para o Francês, cheio de charmes e bicos e todo o romantismo do mundo concentrado em si. Não tinha lá tantas qualidades. Era uma língua na média, apesar de extremamente pragmática. E agora todas as línguas a respeitariam. Cantariam músicas e encontros internacionais seriam presididos neste idioma. Todos sucumbiriam às suas idiossincrazias. Corriam boatos até que as outras línguas morreriam, as mais velhas e as mais novas. Até os dialetos africanos, que ainda nem descobriram os tempos passado e futuro. E assim ficou estabelecido: o Inglês era agora o idioma internacional. Era só questão de tempo até todos acostumarem. Dizia-se que em cerca de 10 ou 20 anos, seria a única língua falada. O que era uma pena para o pobre Esperanto, que assistia tudo ali, mas tão caladinho, tão novinho e sem experiência. Fora criado para esse propósito, mas era muito anormal, muito artificial. Diziam que era o robô das línguas.
Um tempo se passou, cada uma das línguas mudou sutilmente, que o tempo age também sobre elas. O Inglês tem problemas em se definir europeu ou americano, mas ainda assim reina. Mas os idiomas insitem em deixar-se imunes, continuar existindo, se adaptando, até, à nova situação. Tudo muda um pouco, mas cada peculiaridade diz respeito a um povo, uma cultura. E cada vez que se tenta unificar tudo, com o tempo, mudará. Por que isto está em cada local, em cada grupo, em cada ghetto, e cada distância física ou cultural, acaba por impor forças que estão além de todo esse pragmatismo sempre alerta do ser-humano.
As línguas são soberanas de seu povo, e seu povo soberano de suas línguas.

domingo, 5 de julho de 2009

Malícia, o País das Maravilhas

Tinha 12 anos. E, nesse dia específico, aos 12 anos, 3 meses, 23 dias, 11 horas, 15 minutos e 26 segundos de vida, por algum acaso, tudo mudou sob seu ponto de vista. Sexo acabara de deixar de ser apenas uma palavra engraçada, e tinha um significado a mais, algo como um arrepio, mas não aquele de frio. Apesar que esse trazia ainda um friozinho na barriga. Mas não era a mesma coisa. E se apaixonou pelo sexo. Primeiro, pelo seu. Admirava o seu sexo como algo seu, como um filho que criava. Ficava comparando de um dia para o outro para saber se crescia. Depois, começou a reparar em algo que antes era só diversão: garotas. Ainda não tinha intenção de praticar sexo: era uma recém descoberta. Mas já passara a admirar as coleguinhas. E sabia que algumas ali já beijavam. Ah, como devia ser boa a sensação de beijar... já lhe vinha aquele arrepio e o friozinho.
Ficava acordado até horas avançadas da noite, pensando em como era o mundo crescido. E pensava em como era tolo antes por não sentir as coisas como as sente hoje. Não sabia como poderia viver sem aqueles arrepiozinhos, sem aquela vontade de fazer algo escondido de todos, atrás de algum lugar onde deixasse ele escondido com a garota mais bonita da escola. Daí ele pegaria na mão dela, bem firme, por que se fosse de leve, ela veria que ele está tremendo. Ainda adorava as brincadeiras de pique, mas agora não vivia só daquele momento. Acho que é isso o que muda: antes desse dia, não planejava o futuro; encontrava os amigos, saía para brincar, brincava, cansava, voltava para casa, dormia, sem pensar em nada. Agora, tinha de planejar. Tinha de escolher um caminho onde pudesse ver aquela tal menina detentora de sua paixão mais secreta que todas as senhas de bancos. Tinha de observá-la com a cautela de agente federal, pois ninguém deveria saber que gostava de garotas.
Até o dia que foi pego com a mão na massa. Fizeram chacota, tomou bronca dos pais. Isso era muito feio. Era um pecado, e contra a castidade. Chorou, foi humilhado. Riram do seu pobre sexo, seu motivo de orgulho. E agora, sua única descoberta foi discriminada. Se sentiu no lixo, como se tivessem esmagado todo seu corpo com tantas palavras cruéis, depois descartado. Só queria voltar ao tempo em que brincar era tudo o que tinha a fazer. Mas jamais poderia brincar da mesma maneira. Jamais deixaria de ter agora um outro objetivo. Descobriu que existia a malícia, e que ela era, em várias formas, boa. Mas tinha de a esconder. Tinha de esconder seus desejos como escondia que gostava de meninas. E agora nem queria mais esconder. Era o país das maravilhas, esse prazer indescritível que podia agora sentir. Mas não tinha nenhum green card.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Precisa-se de poetas

Ah, era só plantar, que dava. Jogava-se uma palavra qualquer, nem precisava ser dessas rebuscadas, antigas, e nascia Camões. Se fosse um verbo, talvez viesse Drummond, mas um substantivo, com certeza era Pessoa.
Em terra tão boa, não tinha ouro, não brotava diamante, nem jorrava petróleo. Mas semente jogada era semente plantada. Mas logo trouxeram os tratores, pisotearam terra tão vasta, cravejaram-na de cravos, pneus, lonas, arados. Virou terra devassa. Assim, de perna aberta mesmo, como essas mulheres de cabaré. Cabarés de Noel, ou mesmo Álvares de Azevedo.
Lógico, não ficou barato. A terra não quis mais ser assim, tão bondosa, tão cheia de substância. Ficou ali, na espreita, guardando tudo que tinha até as próximas das próximas, das posteriores das posteriores das póstumas gerações que a tratassem com carinho, para, então jorrar a essas gerações todo tipo de poemas e histórias que encantariam todas as gerações depois destas.
Mas demorou tanto, que ninguém nem sabia que terra boa era aquela. Uma terra com outrora tantos adjetivos, não continha mais que dejetos, tamanha negligência para esta terrinha.
Um velho lavrador, no entanto, nunca se assusta ao ver tanta coisa bonita escrita entre uma mudinha de poeta e outra, pois é ele quem guarda, ali mesmo, naquele velho sítio, tão pobrezinho e tão cheio de nada, que até parece vazio de tudo, o coração triste a amargurado daquela velha terrinha, que estava lá tanto tempo antes, tranquila em seus afazeres teatrais, em suas mágicas tão virtuais, capazes de gerar vida continuamente dentro de si, mas que agora é usada e abusada, no sentido sexual mesmo, por gananciosos que nem por porcos passariam.
Não, até em porco tem poesia. Mas coitada da terra, já nem sabe mais onde fica. Nem tem mais vizinhas. Mudaram-se, com medo que esse mato podre apodrecesse todas elas.
Precisamos mesmo é de poetas.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Segundo segundo

E aquele segundo se passou deixando um acontecimento de tal modo grandioso que até mesmo o segundo pretendente a presente se recusou a entrar. Foi o espaço de três segundos até que algum segundo criasse coragem para ocupar aquele vácuo. E foi nesses três segundos que nada se moveu, a gravidade violava uma lei básica e se contrariava, ficou na dúvida se puxava para cima ou para baixo, e acabou deixando parado no ar o gato que caía da árvore. Não deu tempo de se abrir as bocas, e foi enquanto tudo estava parado que a informação lhes chegava da retina aos respectivos cérebros. E nesses três segundos, processaram tanta informação quanto toda uma geração. Todo o filme da vida passou pelo menos cinco vezes para cada um; toda conta de matemática por resolver teve sua resposta dada com precisão de oito casas decimais; toda a lógica humana foi compreendida, sabendo-se, inclusive, o que Freud admitiu jamais explicar: do que as mulheres gostam.
Contudo, foi tanta informação sem tempo de processar (aquele maldito segundo se recusava a fazer o tempo marchar) que tudo perdeu-se. Ficava sempre aquele pulga atrás da orelha, todos sentiam que tiveram alguma coisa, e que era algo grande, bem grande. Mas jamais poderiam dizer o que era. Justo no momento que o cérebro ia guardar para sempre todas aquelas respostas mais comprometedoras, os corações voltaram a bater, as gotas na pia retomaram o seu pingar rotineiro e o gato espatifou-se no chão. Obviamente, foi uma brincadeira de muito mal gosto por parte daquele segundo travesso, que, no fundo, só quis ver o circo pegar fogo.
É claro, passado esse segundo um tanto inconveniente, seus superiores, os minutos e as horas, puniram-no, subjugando-o a demorar-se toda vez que tivesse de entrar. E só entraria nas horas mais tediosas, de modo a não poder se divertir. Desde então, fez-se o tédio durar, no espaço de um segundo, o que faz parecer horas, dias.