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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O Jeito de Falar
As palavras foram penetrantes. Não fazia ele o seu tipo usual, mas de repente, pareceu a ela extremamente sensual. Tudo por que soube dizer as palavras corretas, naquele exato momento, com aquele exato tom. E o jeito como movia os lábios, assumiam um caráter mais carnal como o de costume. Toda a paixão entrou pelos ouvidos, e com ela todos os desejos. E tudo se transformou num calor que subia por meio das pernas, e um arrepio como que a acariciando os seios, chegava numa forma de falta de ar pelo pescoço, que, por sua vez, esperava um toque úmido de lábios. Ah, mas também foi aquele olhar de quem via sem olhar, ou de quem olhava sem ver, que trespassava qualquer carne e osso - principalmente a carne. O movimento dos olhos era como um tango, e tinha o calor do tango. Tinha a sensualidade do tango, mas com um leve tom de valsa, gracioso. E aquilo fazia-a subir pelas paredes. Já se colocaria despida ali, sensualmente, abriria um sorriso discreto, se aproximaria até o ponto em que ambos pudessem sentir a falta de respiração, a entonação falsa das vozes cobertas pela libido, mas no fundo sabia que não era isso. Aquela vontade passaria em alguns minutos - o quanto durasse o orgasmo. No fundo sentia que essa vontade era superficial. Preferia os pensamentos vazios e profundos aos desejos frívolos e profanos. Ele, do outro lado, nem sabia o que se passava, e o que tinha perdido. Seria a melhor de todas suas noites, mas agora não fazia mais diferença. Era um passado que nem chegou a ser cogitado como futuro.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Fruto Proibido
E o Padre diz, confiantemente, até levantando a voz, com seu sotaque ligeiramente italiano:
"...e é por isso, caros fiéis, que somos todos pecadores. Adão comeu do fruto proibido e foi expulso do paraíso, e apartir de então, cada criança que viria ao mundo seria concebida pelo pecado original!"
Uma construção muito inteligente, a católica/cristã. Desse modo, todos seríamos obrigados a nos purificarmos com alguma religião que seguisse esses dogmas. Mesmo um homem que em sua vida fosse absolutamente livre das contaminações da carne e se fosse possível que ele jamais pecasse, estaria assim preso à doutrina, de modo que jé veio como um pecado.
O Padre, ao final da missa, estava certo de que cumpriu seu papel. Viu no rosto dos fiéis que aquela tinha sido uma missa diferente e cativara todos. Viu o brilho em especial nos olhos de um jovem, que acreditava, antes mesmo de acreditar em Deus, na ciência, de modo que se mostrava confuso na maioria das vezes com relação a esses assuntos.
Esse mesmo jovem veio depois conversar com o Padre:
- Padre, todos nós somos frutos do fruto proibido? Aliás, melhor dizendo, todos nascemos do pecado mesmo?
- Sim, meu filho. Isso não quer dizer que estejamos condenados para sempre. Nascemos pecadores, e Ele não nos ama menos por causa disto.
- Mas isso pelo fato de papai e mamãe, vc sabe... - o jovem se sentiu bastante desconcertado quanto a tocar nesse assunto, embora o Padre tenha encarado com certa naturalidade de quem queria esclarecer tudo.
- Sim, meu filho. Esse é o modo com que somos concebidos e, ao mesmo tempo, o pecado original.
- Mas não tem a ver com o amor?
- Amor não absolve de pecados.
O jovem então sai consternado da conversa. Sempre acreditara no amor! Não que tenha parado de acreditar, mas saiu com certo receio de tudo. Pensou na vida, e no que era religião. Pensou, até que veio-lhe uma idéia. Se os homens que vêm do sexo são pecadores, o que o são os bebês de proveta, que nasceram sem haver o sexo para sua concepção? Os padres diriam que eram uma aberração que o homem criou. Mas teria o bebê culpa disso? Como o tinham os que nasceram do sexo?
Pensou muito a respeito. Achou que os bebês gerados artificialmente poderiam não ter o mesmo amor que um gerado à moda que antecede os impérios e as nações. Ou não, poderiam ser mais amados, pela dificuldade. Chegou à conclusão que também chegou Sócrates 2400 anos antes, não necessariamente sobre o mesmo assunto: que nada sabia. Continuou com sua crença de que o que era mais importante era o amor. Mesmo que o Padre dissesse que ele não absolvia as pessoas, mas o fazia sentir seguro. Mas continuou achando que agora, com a biogenética de vento em popa, era péssima desculpa achar que somos pecadores apenas pelo fato de sermos gerados pelo pecado.
Gostaria de deixar claro que não me posiciono contra ou à favor do catolicismo/cristianismo, só achei interessante o fato de bebês de proveta não virem do "pecado".
"...e é por isso, caros fiéis, que somos todos pecadores. Adão comeu do fruto proibido e foi expulso do paraíso, e apartir de então, cada criança que viria ao mundo seria concebida pelo pecado original!"
Uma construção muito inteligente, a católica/cristã. Desse modo, todos seríamos obrigados a nos purificarmos com alguma religião que seguisse esses dogmas. Mesmo um homem que em sua vida fosse absolutamente livre das contaminações da carne e se fosse possível que ele jamais pecasse, estaria assim preso à doutrina, de modo que jé veio como um pecado.
O Padre, ao final da missa, estava certo de que cumpriu seu papel. Viu no rosto dos fiéis que aquela tinha sido uma missa diferente e cativara todos. Viu o brilho em especial nos olhos de um jovem, que acreditava, antes mesmo de acreditar em Deus, na ciência, de modo que se mostrava confuso na maioria das vezes com relação a esses assuntos.
Esse mesmo jovem veio depois conversar com o Padre:
- Padre, todos nós somos frutos do fruto proibido? Aliás, melhor dizendo, todos nascemos do pecado mesmo?
- Sim, meu filho. Isso não quer dizer que estejamos condenados para sempre. Nascemos pecadores, e Ele não nos ama menos por causa disto.
- Mas isso pelo fato de papai e mamãe, vc sabe... - o jovem se sentiu bastante desconcertado quanto a tocar nesse assunto, embora o Padre tenha encarado com certa naturalidade de quem queria esclarecer tudo.
- Sim, meu filho. Esse é o modo com que somos concebidos e, ao mesmo tempo, o pecado original.
- Mas não tem a ver com o amor?
- Amor não absolve de pecados.
O jovem então sai consternado da conversa. Sempre acreditara no amor! Não que tenha parado de acreditar, mas saiu com certo receio de tudo. Pensou na vida, e no que era religião. Pensou, até que veio-lhe uma idéia. Se os homens que vêm do sexo são pecadores, o que o são os bebês de proveta, que nasceram sem haver o sexo para sua concepção? Os padres diriam que eram uma aberração que o homem criou. Mas teria o bebê culpa disso? Como o tinham os que nasceram do sexo?
Pensou muito a respeito. Achou que os bebês gerados artificialmente poderiam não ter o mesmo amor que um gerado à moda que antecede os impérios e as nações. Ou não, poderiam ser mais amados, pela dificuldade. Chegou à conclusão que também chegou Sócrates 2400 anos antes, não necessariamente sobre o mesmo assunto: que nada sabia. Continuou com sua crença de que o que era mais importante era o amor. Mesmo que o Padre dissesse que ele não absolvia as pessoas, mas o fazia sentir seguro. Mas continuou achando que agora, com a biogenética de vento em popa, era péssima desculpa achar que somos pecadores apenas pelo fato de sermos gerados pelo pecado.
Gostaria de deixar claro que não me posiciono contra ou à favor do catolicismo/cristianismo, só achei interessante o fato de bebês de proveta não virem do "pecado".
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