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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Droga do Cotidiano

Tenho um profundo medo de desinteressar da vida. Algumas vezes acordo, ainda com sono, sei que tenho coisas a fazer. Às vezes nem tenho, mas invento, afinal, o dia tem que ser preenchido. Fui ensinado que não fazer nada é desperdício de tempo. Mas e quando o dia anterior foi sensacional? Aquela sucessão de acontecimentos que se encaixaram como cada uma das pedras das pirâmides deixaram escritas e pintadas memórias que só poderiam surgir da cabeça de mestres. Só o que resta é acordar no outro dia fomentando uma falsa esperança de que todo dia pode ser assim. É aí que se chuta o pé da cama ou o pé da mesa. É aí que o jogo vira.
Em milésimos de segundos e microgramas de neurotransmissores percebo o que acontecerá em diante: esquecerei a conta que eu deveria pagar em casa, ficarei preso no trânsito e me sentirei mal por ter me atrasado para o trabalho.
O que acontece é que ao mesmo tempo que acredito estar vivendo os melhores anos da minha vida, parece que também cada vez mais acho qualquer novidade déjà vu. É como se no primeiro dia eu aprendesse a beber e me apaixonasse pela embriaguez e entre com muita sede ao pote, literalmente. Daí vem o segundo dia, vem a ressaca e a vontade de que o mundo se exploda e só volte a existir no terceiro dia. Daí no terceiro dia já nem tenho mais tanta sede. É só vontade pois sei que eu gosto. E não porque descobri que gosto, ou porque estou sentindo o quanto gosto. Eu sei. E isto apodrece tudo. Agora sei que gosto de viajar, sei que gosto de assistir a shows, sei que gosto de sexo. Mas tudo já perdeu o tom de novidade. Tenho medo que eu sinta cada vez menos as coisas. É realmente uma droga parar para pensar nas coisas. Tem até os mesmos efeitos de drogas. Primeiro, um medo de experimentar, depois uma sensação de êxtase e, por fim, uma depressão depois que acaba a parte boa.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Dom Pedro Álvares Cabral  de Alcântara Orleans e Bragança descobriu a independência do Brasil no dia 22 de setembro de 1500. Foi quando disse a seguinte frase: "se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digo a todos que esta é terra em que se plantando, tudo dá". E às margens do rio de Santa Cruz com sua caravela encalhada (o rio não era mar - era grande, mas não era fundo) deixou-nos independente de sua sub-colônia: as Índias.
Apesar do que dizem, não era português. Espanhol de nascença, marujo de coração, fidalgo de título e rei por obrigação, sentiu a necessidade de firmar-se como Imperador do Reino Unido de Portugal e Algarves sobre um de seus três barcos de lazer (ainda depois seriam conhecidos como "iates"), Santa Maria, Pinta e Nina. Viveu no mar, morreu de mar, embora não se saiba ao certo a causa de sua morte. E também de ano incerto, já que não há nenhum remanescente da viagem (tragédia tal que as damas lusitanas fizeram o Tejo de suas lágrimas), mas provavelmente foi em algum ano entre a republicação proclamada ou reclamação da procública, não me lembro bem, e a declaração dos direitos universais - guerra sangrenta sem antecedentes (criminais).
Em sua última carta, sabendo iminente a tragédia, escreveu: "saio da vida para entrar na história. Aqui jaz um navegante que sempre teve medo de mar. Navegar não é preciso."

A professora teve de reconhecer: ele não sabia nada de história, mas merecia pelo menos um sete pela criatividade. Foi para casa feliz: era a primeira vez que tirava um sete em toda sua vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Passeio ao redor de nossos sentimentos

Com os subterrâneos aqui do meu lado de cabeceira fiquei pensando e deu vontade de sair andando, e eu saí e fui andar e ver as pessoas paradas na praça, as pessoas ficam ali sem nem saber por quê, mas ficam e às vezes me faz bem ver gente por ali então achei que deveria passar por lá. Hoje fiquei pensando que tipo de pessoa eu seria, fiquei pensando se eu poderia ser mais de uma pessoa dentro de mim, não uma dupla-personalidade, mas duas pessoas diferentes mesmo com vários sentimentos e idéias diferentes, e por quê não? eu pensei comigo e quis ser outra pessoa por um momento, que eu já tinha enjoado de mim e pensei que se Fernando Pessoa podia ser não dois, mas quatro, por que é que eu não poderia ser ao menos dois - um triste e um feliz? E como diria meu amigo (que não me conheceu mas acho que talvez desse certo de a gente ser um pouco amigos mesmo) que até já citei pouco atrás: "tristeza não paga conta", então resolvi ser o feliz hoje. Andei mais um pouco para ver se continuava a pensar tão longe como meus pés nunca chegariam nem que voassem mas vi que não pensava em nada mais, estava ali apenas sendo e era só o que eu podia fazer eu só podia ser. Quem não é Jack não viaja e não tem a batida e não tem o ritmo de palavras de modo que fica quase sempre difícil pensar se, ora, já pensaram por nós, aí fiquei preso nisso que tudo que eu pensava alguém já tinha pensado e que isso fazia de mim um nada e aí fui diminuindo diminuindo até ficar de um tamanho irreconhecível e ninguém ali parecia se importar com nada disso, muito menos parecia que isso ainda iria ser motivo de preocupação e diminuí mais ainda por ficar pensando em algo que agora parecia menos importante do que um escritor que não sabe escrever (que agora poderia até ser eu mesmo). Percebi que era a hora de voltar para casa que este deveria ser o eu triste querendo voltar e ainda não era a hora e quando cheguei em casa coloquei um samba da pesada, deu vontade de apagar a luz para ouvir cada das palavras que fazem a gente querer tocar violão com um monte de gente em volta a noite toda e ainda fazem a gente sentir coisas que só se pode sentir ao se ouvir um bom samba, fui me deixando ficar assim a noite inteira e vi que era isso que todo mundo procurava na rua. Pensei: tutti buona genti!