Tenho um profundo medo de desinteressar da vida. Algumas vezes acordo, ainda com sono, sei que tenho coisas a fazer. Às vezes nem tenho, mas invento, afinal, o dia tem que ser preenchido. Fui ensinado que não fazer nada é desperdício de tempo. Mas e quando o dia anterior foi sensacional? Aquela sucessão de acontecimentos que se encaixaram como cada uma das pedras das pirâmides deixaram escritas e pintadas memórias que só poderiam surgir da cabeça de mestres. Só o que resta é acordar no outro dia fomentando uma falsa esperança de que todo dia pode ser assim. É aí que se chuta o pé da cama ou o pé da mesa. É aí que o jogo vira.
Em milésimos de segundos e microgramas de neurotransmissores percebo o que acontecerá em diante: esquecerei a conta que eu deveria pagar em casa, ficarei preso no trânsito e me sentirei mal por ter me atrasado para o trabalho.
O que acontece é que ao mesmo tempo que acredito estar vivendo os melhores anos da minha vida, parece que também cada vez mais acho qualquer novidade déjà vu. É como se no primeiro dia eu aprendesse a beber e me apaixonasse pela embriaguez e entre com muita sede ao pote, literalmente. Daí vem o segundo dia, vem a ressaca e a vontade de que o mundo se exploda e só volte a existir no terceiro dia. Daí no terceiro dia já nem tenho mais tanta sede. É só vontade pois sei que eu gosto. E não porque descobri que gosto, ou porque estou sentindo o quanto gosto. Eu sei. E isto apodrece tudo. Agora sei que gosto de viajar, sei que gosto de assistir a shows, sei que gosto de sexo. Mas tudo já perdeu o tom de novidade. Tenho medo que eu sinta cada vez menos as coisas. É realmente uma droga parar para pensar nas coisas. Tem até os mesmos efeitos de drogas. Primeiro, um medo de experimentar, depois uma sensação de êxtase e, por fim, uma depressão depois que acaba a parte boa.
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Futuro daqui pra Frente
Este sou eu na busca de um emprego, buscando meu lugar no futuro. Nem sei se já quero meu lugar no futuro. Quero mesmo é empregar o presente nessa onda que tenho tido de querer viver agora o mundo todo a todo segundo; presentear o emprego das idéias de felicidade que tenho dentro de mim com a realização de cada uma delas.
Tenho que ir, me abrir com quem não conheço (e que muitas vezes nem quero conhecer), tenho que mostrar meu currículo como se eu pudesse dizer com 35 linhas o que fiz a pessoa que sou e se minhas habilidades se encaixam no perfil desejado como brinquedos lógicos para crianças de 3 anos. Minha sinceridade está ali, a postos, pronta para ser usada - em caso de necessidade. E me dizem: seja você mesmo. Não sou empresa, não sou papel, e é isto que eles querem. Querem minha caveira, minhas horas de trabalho, minhas mãos e um pouco do meu cérebro. Marx diz que querem a parte não paga de meu trabalho, e Adam Smith diz que querem minha contribuição para vencermos o concorrente (de forma justa). Já nem sei se acredito nestas ideologias - mesmo quanda até então incontestáveis - que não me mudam em nada. Vou acordar, procurar manter-me empregado, sustentar-me (sustentavelmente ou não) independentemente da luta de classes. Meus valores já beiram o lixo, e o lixo beira o esquecimento, que beira a morte dos sentimentos puros e um pouco autruístas.
Hoje, quando me pergunto o que mais vale, tenho medo das minhas respostas. Posso querer sumir, ir para o Alasca, talvez, não me importando com a sociedade e o meu antigo mundo; posso só mudar de país a cada mês e ser anônimo, ser um mendigo, embora íntegro; posso passar a viver destas queixas ou posso simplesmente aceitar: uns foram feitos sem moldura, com tinta removível e com várias tonalidades que nem mesmo os olhos podem ver. Outros simplesmente se passam por um sorriso enigmático pré-determinado que fica exposto ali, com milhões de expectadores na expectativa de compreender o seu sorriso, embora nem você mesmo saiba por que está sorrindo.
Tenho que ir, me abrir com quem não conheço (e que muitas vezes nem quero conhecer), tenho que mostrar meu currículo como se eu pudesse dizer com 35 linhas o que fiz a pessoa que sou e se minhas habilidades se encaixam no perfil desejado como brinquedos lógicos para crianças de 3 anos. Minha sinceridade está ali, a postos, pronta para ser usada - em caso de necessidade. E me dizem: seja você mesmo. Não sou empresa, não sou papel, e é isto que eles querem. Querem minha caveira, minhas horas de trabalho, minhas mãos e um pouco do meu cérebro. Marx diz que querem a parte não paga de meu trabalho, e Adam Smith diz que querem minha contribuição para vencermos o concorrente (de forma justa). Já nem sei se acredito nestas ideologias - mesmo quanda até então incontestáveis - que não me mudam em nada. Vou acordar, procurar manter-me empregado, sustentar-me (sustentavelmente ou não) independentemente da luta de classes. Meus valores já beiram o lixo, e o lixo beira o esquecimento, que beira a morte dos sentimentos puros e um pouco autruístas.
Hoje, quando me pergunto o que mais vale, tenho medo das minhas respostas. Posso querer sumir, ir para o Alasca, talvez, não me importando com a sociedade e o meu antigo mundo; posso só mudar de país a cada mês e ser anônimo, ser um mendigo, embora íntegro; posso passar a viver destas queixas ou posso simplesmente aceitar: uns foram feitos sem moldura, com tinta removível e com várias tonalidades que nem mesmo os olhos podem ver. Outros simplesmente se passam por um sorriso enigmático pré-determinado que fica exposto ali, com milhões de expectadores na expectativa de compreender o seu sorriso, embora nem você mesmo saiba por que está sorrindo.
proseando de:
Aconteceu hoje,
Palavras ao vento,
um texto mais para pessoal...
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Míope
Não sou mais metade do homem
que eu costumava ser.
Por que querer entorpecer-me,
se nem mais a sarjeta me agüenta?
A noite não é de chuva,
mas ainda assim me sinto molhado,
como que me anestesiando também.
Me sinto distante,
não sou consciente dos meus atos.
Não me orgulho disto,
acho-me, em verdade,
patético.
Preciso tomar uma atitude,
atitude de homem.
Já é hora de deixar
de ser tão infantil.
É como se meus heróis
(que também morreram
de overdose)
tivessem morrido à toa.
Preciso de um tempo meu.
Nem um livro para me distrair.
Preciso me encontrar,
mas é tão difícil de procurar.
Os olhos foram feitos
para olhar para fora,
não para dentro.
que eu costumava ser.
Por que querer entorpecer-me,
se nem mais a sarjeta me agüenta?
A noite não é de chuva,
mas ainda assim me sinto molhado,
como que me anestesiando também.
Me sinto distante,
não sou consciente dos meus atos.
Não me orgulho disto,
acho-me, em verdade,
patético.
Preciso tomar uma atitude,
atitude de homem.
Já é hora de deixar
de ser tão infantil.
É como se meus heróis
(que também morreram
de overdose)
tivessem morrido à toa.
Preciso de um tempo meu.
Nem um livro para me distrair.
Preciso me encontrar,
mas é tão difícil de procurar.
Os olhos foram feitos
para olhar para fora,
não para dentro.
proseando de:
Poemas,
um texto mais para pessoal...
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Amor próprio
Acordei. Levantei com aquela cara toda amassada, com um gosto horrível na boca. Hoje nem era dia de acordar; melhor mesmo era ter ficado dormindo. Mas não consegui. Fui em direção ao banheiro, e já senti que haveria um desentendimento. Olhei aquele estranho pela janela que dizia coisas horríveis. Por Deus, eu devia estar dormindo mesmo, que nem janela era; falava eu ao espelho. Como poderia, entretanto, dizer tantas asneiras que eu jamais seria capaz de concordar?
Decidiria que ficaria o dia todo sem falar com este estranho de cara amassada - que era eu. Nem em pensamento. Eu daria uma trégua de mim mesmo, era esse o meu castigo. Saí de casa com todas as minhas coisas. Totalmente em silêncio, nem uma palavrinha, e tudo um breu em minha mente, para não correr o risco de fugir do castigo. E foi realmente difícil não tecer nenhum comentário quando vi aquela linda mulher atravessar a rua, como que ignorando os carros, que de modo algum poderiam ignorá-la.
Mas tive que me segurar. Ela era linda, mas eu merecia. Foi então que resolvi andar mais rápido, para prestar atenção nos meus passos bem ritmados. Sou sem ritmo de tudo, não consigo nem cantar os parabéns que já atrapalho todos os outros com minhas palmas fora do compasso. Mas para andar, tenho um ritmo muito forte. E isso me distrairia.
Nem percebi como eu era teimoso. Queria mais que tudo falar-me, mas não podia. Não devia. Mas eu queria. Não sei quem foi o louco que disse que louco é quem fala consigo mesmo. Travo diálogos brutais e intermináveis diariamente comigo, penso no mundo e penso comigo mesmo, para não me sentir muito sozinho. Assim, tenho um diálogo, pois até que sou bom ouvinte. A parte que pode me fazer passar por louco é que eu nem sempre concordo comigo. Ou é que gosto de ser meu advogado do diabo, e é isso que nos trouxe até esse ponto. Um auto-desentendimento de proporções homéricas. E eu nem lembrava mais o que eu tinha dito. Estava sonolento, só sei que foi horrível.
E sou tão teimoso que mesmo não me lembrando continuo meu voto de silêncio, se é que pode ser chamado assim. Mas percebi que passei a me conhecer um pouco melhor. E acabo por me apaixonar mais por mim mesmo a cada minuto que passo longe de mim. Acho que tenho um relacionamento como se fosse um namoro; às vezes preciso de um tempo de mim mesmo. E é sempre difícil, mas necessário.
Volto para casa, me recomponho, abro uma cerveja bem gelada, faço um brinde - que beber sem brindar, sete anos sem transar - pergunto como foi o dia, e aquele (ainda) jovem ao espelho só me diz: "solitário". Me arrependo, mas ainda assim achei necessário o que fiz. Bastou um gole da gelada para tudo voltar ao regime permanente de todos os dias, fizemos as pazes, e até me admirei um pouco no espelho. Eu parecia diferente, pois, como dizia Raul, a chuva voltando pra terra traz coisas do ar.
Decidiria que ficaria o dia todo sem falar com este estranho de cara amassada - que era eu. Nem em pensamento. Eu daria uma trégua de mim mesmo, era esse o meu castigo. Saí de casa com todas as minhas coisas. Totalmente em silêncio, nem uma palavrinha, e tudo um breu em minha mente, para não correr o risco de fugir do castigo. E foi realmente difícil não tecer nenhum comentário quando vi aquela linda mulher atravessar a rua, como que ignorando os carros, que de modo algum poderiam ignorá-la.
Mas tive que me segurar. Ela era linda, mas eu merecia. Foi então que resolvi andar mais rápido, para prestar atenção nos meus passos bem ritmados. Sou sem ritmo de tudo, não consigo nem cantar os parabéns que já atrapalho todos os outros com minhas palmas fora do compasso. Mas para andar, tenho um ritmo muito forte. E isso me distrairia.
Nem percebi como eu era teimoso. Queria mais que tudo falar-me, mas não podia. Não devia. Mas eu queria. Não sei quem foi o louco que disse que louco é quem fala consigo mesmo. Travo diálogos brutais e intermináveis diariamente comigo, penso no mundo e penso comigo mesmo, para não me sentir muito sozinho. Assim, tenho um diálogo, pois até que sou bom ouvinte. A parte que pode me fazer passar por louco é que eu nem sempre concordo comigo. Ou é que gosto de ser meu advogado do diabo, e é isso que nos trouxe até esse ponto. Um auto-desentendimento de proporções homéricas. E eu nem lembrava mais o que eu tinha dito. Estava sonolento, só sei que foi horrível.
E sou tão teimoso que mesmo não me lembrando continuo meu voto de silêncio, se é que pode ser chamado assim. Mas percebi que passei a me conhecer um pouco melhor. E acabo por me apaixonar mais por mim mesmo a cada minuto que passo longe de mim. Acho que tenho um relacionamento como se fosse um namoro; às vezes preciso de um tempo de mim mesmo. E é sempre difícil, mas necessário.
Volto para casa, me recomponho, abro uma cerveja bem gelada, faço um brinde - que beber sem brindar, sete anos sem transar - pergunto como foi o dia, e aquele (ainda) jovem ao espelho só me diz: "solitário". Me arrependo, mas ainda assim achei necessário o que fiz. Bastou um gole da gelada para tudo voltar ao regime permanente de todos os dias, fizemos as pazes, e até me admirei um pouco no espelho. Eu parecia diferente, pois, como dizia Raul, a chuva voltando pra terra traz coisas do ar.
proseando de:
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terça-feira, 16 de junho de 2009
Perdas, perdas, perdas
Às vezes, parece que está tudo errado, tudo pelo avesso. A vida tem esse jeito meio estranho de nos mostrar as coisas como realmente elas são. A gente começa a se apegar demais em alguém, e esse alguém lhe escorre pelos dedos, como água fria de inverno que tentamos segurar para lavar o rosto. A gente começa a gostar demais de nós mesmos, e aparece alguém para tirar esse amor, para dividir. E aí começa tudo de novo. Até quando? Ainda não tenho maturidade para saber, admito. Pode ser que pare um dia. Nunca aconteceu comigo.
Ainda, a gente quer crescer logo. A gente quer ficar velho. Com 12 anos, a gente quer ter 16 para começar a sair. Com 16, queremos os 18 para poder dirigir e entrar para a faculdade. Com 18, queremos ter 25 para sair da faculdade. E por aí vai. Também não sei o limite disso. Só sei que está tudo errado. A gente quer envelhecer, mas nem lembramos que ficar velho significa ter cada vez menos tempo com cada pessoa que amamos e queremos ao nosso lado. E assim, a gente só vai vivendo, dia-a-dia, querendo que esse maldito dia acabe logo. E quando nos damos conta, terminamos um namoro, mudamos de cidade, mudamos para longe dos pais, dos amigos, isso sem ser muito dramático. E aí, queremos que tudo volte. E não volta.
Vamos fazer novos amigos, vamos namorar de novo, vamos rever nossos pais, dar-lhes-emos netos, e vamos querer que tudo passe logo. Para chegar nas férias, que vão realmente passar rápido. Vamos querer que passe para ver nossos filhos evoluírem nos estudos (será que vai ser assim mesmo?), mas também vamos querer que eles fiquem sempre pedindo colo, pedindo um lanche, aquele doce que só as mães fazem.
E acho que muito do que a gente sofre é por isso. A gente fica com medo de não ter outra namorada, de perder os amigos, de passar pouco tempo com os pais, se distanciar da família. A gente fica com medo de mudar, e pensa demais nisso. A gente tem que aprender a mudar, e queria tanto que alguém mo ensinasse. Aí vem aquela velho, mas não pouco correto, chavão: "a gente tem que sofrer para aprender". E se a gente aprendesse a não sofrer? Pelo menos não sofrer tanto...
Fico pensando agora no quanto a gente tem que se deixar amar alguém, o quanto devemos depender de alguém, o quanto devemos nos prender aos outros, não só cônjuges, mas todos de quem gostamos. Devia ter uma fórmula matemática para isso, algum psico-matemático deveria trabalhar nisso. É só que tudo parece errado: quanto mais nos apegamos, mais nos afastamos... ou talvez seja só uma dorzinha de cotovelo que me faz falar pelos cotovelos. É que é uma noite fria, me demoro a dormir. Eu só queria que o tempo tivesse parado, que tudo fosse uma rotina, mas sem que a gente soubesse que era uma rotina. Difícil explicar, mas é tão claro na minha cabeça. A gente teria certeza que era feliz, por que não haveríamos de saber que não éramos felizes. Pelo jeito vou ter que reaprender a ver tudo como era antes, antes de saber que se podia perder qualquer coisa. Vou ter de aprender a perder. Como disse Elizabeth Bishop:
"--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."
É o que vou fazer: aprender a perder. Nada mais justo do que seguir a vida, mostrar-se forte e sentir-se forte, superando tudo que temos que suportar. Mais um velho chavão: e a vida continua!
Ainda, a gente quer crescer logo. A gente quer ficar velho. Com 12 anos, a gente quer ter 16 para começar a sair. Com 16, queremos os 18 para poder dirigir e entrar para a faculdade. Com 18, queremos ter 25 para sair da faculdade. E por aí vai. Também não sei o limite disso. Só sei que está tudo errado. A gente quer envelhecer, mas nem lembramos que ficar velho significa ter cada vez menos tempo com cada pessoa que amamos e queremos ao nosso lado. E assim, a gente só vai vivendo, dia-a-dia, querendo que esse maldito dia acabe logo. E quando nos damos conta, terminamos um namoro, mudamos de cidade, mudamos para longe dos pais, dos amigos, isso sem ser muito dramático. E aí, queremos que tudo volte. E não volta.
Vamos fazer novos amigos, vamos namorar de novo, vamos rever nossos pais, dar-lhes-emos netos, e vamos querer que tudo passe logo. Para chegar nas férias, que vão realmente passar rápido. Vamos querer que passe para ver nossos filhos evoluírem nos estudos (será que vai ser assim mesmo?), mas também vamos querer que eles fiquem sempre pedindo colo, pedindo um lanche, aquele doce que só as mães fazem.
E acho que muito do que a gente sofre é por isso. A gente fica com medo de não ter outra namorada, de perder os amigos, de passar pouco tempo com os pais, se distanciar da família. A gente fica com medo de mudar, e pensa demais nisso. A gente tem que aprender a mudar, e queria tanto que alguém mo ensinasse. Aí vem aquela velho, mas não pouco correto, chavão: "a gente tem que sofrer para aprender". E se a gente aprendesse a não sofrer? Pelo menos não sofrer tanto...
Fico pensando agora no quanto a gente tem que se deixar amar alguém, o quanto devemos depender de alguém, o quanto devemos nos prender aos outros, não só cônjuges, mas todos de quem gostamos. Devia ter uma fórmula matemática para isso, algum psico-matemático deveria trabalhar nisso. É só que tudo parece errado: quanto mais nos apegamos, mais nos afastamos... ou talvez seja só uma dorzinha de cotovelo que me faz falar pelos cotovelos. É que é uma noite fria, me demoro a dormir. Eu só queria que o tempo tivesse parado, que tudo fosse uma rotina, mas sem que a gente soubesse que era uma rotina. Difícil explicar, mas é tão claro na minha cabeça. A gente teria certeza que era feliz, por que não haveríamos de saber que não éramos felizes. Pelo jeito vou ter que reaprender a ver tudo como era antes, antes de saber que se podia perder qualquer coisa. Vou ter de aprender a perder. Como disse Elizabeth Bishop:
"--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."
É o que vou fazer: aprender a perder. Nada mais justo do que seguir a vida, mostrar-se forte e sentir-se forte, superando tudo que temos que suportar. Mais um velho chavão: e a vida continua!
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Meus últimos dias (não é o fim)

Ultimamente andei um tanto preocupado com o tempo. Pensei muito no tempo e refleti muito, mas, óbviamente, não cheguei a nenhuma conclusão. Caí muito em contradição por não entender meus próprios argumentos e por ser uma eterna contradição. Quantas coisas escrevi que já nem concordo mais. E, se concordasse, seria por imaturidade.
Andei preocupado com o tempo por não tê-lo. Só nos preocupamos com o que temos escassamente. Nos preocupamos com nossa vida, nossos entes e amigos, nosso dinheiro, o nosso amor, nossos batimentos cardíacos. A cada um, é um a menos que temos, e queremos aproveitar todos. Acho que foi assim. Meu tempo se acabou. Não que chegou a hora da morte, não sei. Espero que esteja longe, embora nada possa eu prever. É que tenho estado demasiadamente ocupado e minha cabeça não acompanhava minhas pernas, sempre a correr. A temperatura do meu sangue, que fluía velozmente, subia, subia e subia, sem que eu tivesse controle sobre isso. Veio o estresse, a cafeína foi-se. Abandonei-a à sua própria sorte, e que não volte ela ao meu corpo. Vieram as provas a me avaliarem o estado mental. O estado mental de quem apenas aprende a correr, mas que não digere. Não informa, não aglutina informações ou conhecimento. Apenas números, letras e integrais.
Claro, não pude me conter sozinho, não fui minha própria cura. Ainda estou sem tempo, mas ele não me preocupa, pois haverá de ser compensado. Minha situação é longe de ser das piores. Mas só pensei isso quando, após sair desse ciclo de correrias, minhas pernas pararam. E observei as belas nuvens do crepúsculo, que variam os tons entre um branco tendendo ao amarelado e um tom meio fúscia, meio violeta. Lembrei que era do meu feitio observar e me acalmar. Mas quem me salvou, já disse, não fui eu, apenas. Liguei, conversei e amei, ainda que à distância. Foi tudo que eu precisava. Amigos que eu cruelmente afastei. Um amor que só me traz alegrias. Uma mãe, que só me quer por perto, e eu sempre me afasto, muitas vezes mais pela sorte do destino do que minha própria vontade de seguir sozinho, ou de seguir um caminho meu, novo. Uma família, também, que subestimo o amor que podem nutrir.
Assim me vou, andando para frente, seguindo esse velho caminho que julgo eu novo, embora, no meu íntimo eu saiba que já foi tantas vezes traçado, desviado pouco em percurso e chegando sempre ao mesmo lugar. Nas preocupações, e na maior delas, inclusive: como se livrar das preocupações. Vou planejando como viver uma vida em que eu seja dependente, na maior parte do meu tempo livre, apenas dos meus gostos. E deixo de lado meus gostos para seguir esse planejamento, que sempre se distorce pelo caminho.
Aos meus amigos, família, meus desejos pessoais e meu amor, só peço que me desculpem e um pouco de paciência, embora não seja justo pedir-lhes justamente algo que, de tão escasso, nos preocupa por demais: paciência. Um dia, talvez, se sentirão como eu. Eu poderei ser incompreensivo, mas me arrependerei disso, e pedirei perdão novamente. Espero que perdão nunca seja algo escasso, ou será apenas mais uma preocupação para mim.
Fazer o quê! Paciência!
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