Tenho que tomar cuidado por onde ando! Todas essas almas partidas, espalhadas e despedaçadas pelo chão...Não há limpeza nesse local, pois as almas não são recicláveis! Almas mortas por montes de palavras frias e cruéis. Cirúrgicas! Palavras que, ora saíram sem querer, ora pularam para fora e não mais puderam voltar; palavras escapulidas num momento em que o mundo não cabe nos pulmões e costelas da pessoa que as profere; palavras maldosas e inescrupulosas, má-intencionadas, também.
Nuas, proféticas e herméticas. Todos hermetismos passam necessariamente por essas palavras, que ajustam tudo como querem. Podem dizer muito ou dizer nada, ainda assim, de qualquer forma, poderosas! Manipuladoras e mecânicas, com vontade próprias. Todas essas que me saem agora, saíram planejadas, combinadas. Nada é aleatório ou tem livre-arbítrio, com exceção das palavras. E agora, jazem essas almas sob meus pés, amorfas, irreconhecíveis. Conhecidas e desconhecidas. Todas inteligentes, livres dessas palavras. Sem vida, entretanto. Até que me sinto bem nessa situação. Regozijo uma vida presa, truncada, atravancada, mas, contudo, vida. Meus olhos constroem palavras que ficam presas no fundo da minha retina, tatuadas lá para sempre. Sons, cores, texturas, são como essas almas. Mortas, independentes.
E há, por cima de tudo, um coração que bate. Um coração que sente, que se arrepende das almas, tal qual vidros em estilhaços, partes de um espelho que nos traz a imagem cansada de nossos rostos, e nos corta com seus cacos, mas o brilho ainda nos emociona. Um coração que bate, e como bate, e como sente, e como ama, e como vive, pulsa, luta, regozija, exubera. Deixo sair as palavras que tornaram meu dia chato, intragável. Vão, e tomara que não voltem, eu as amaldiçôo. Mas são necessárias. Um dia hão de levar minha alma. Até lá, ainda darei muito trabalho a elas com todo meu silêncio e meus sentimentos, calados. Nem um pio, silêncio. Meu coração se acalma, e assim fica. Silêncio, silêncio...
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
The Great Gig in the Sky
E vêm me falar de imortalidade. O que seria, permanecer imortal? Em princípio, seria o mesmo que viver para sempre? Eu juro que tento entender. Ou seria vagar por aí, moribundo, tentando mostrar que a vida após a morte existe? Mas, a nós, vivos, essa vida parece muito pouco atrativa, nos amedronta não só pela dúvida de sua existência, mas também pelo caráter como nos acostumamos a vê-la, putrefata e insubstancial.
Poderia ser deixarmos um legado a outras gerações, sermos lembrados para sempre, e assim, tudo ser apenas mais simbólico do que necessariamente espiritual ou material? Mas até que ponto seríamos imortais? Até que ponto nossos legados nos serão fiéis? Até que ponto nossas músicas, nossos escritos terão sua interpretação intacta, se é que um dia tiveram?
Subjetivas músicas, que nos dão, à nossas mãos, nossos pés, nossos corpos, a certeza da morte, a beleza da morte, o amor sublime, o amor do pecado, o medo, a traição, a rendição, submissão e por aí vai... sentimos tudo isso, muitas vezes nem sequer percebemos ou conseguimos nos exprimir. "Você escuta uma marcha, você marcha; você escuta uma valsa, você dança", disse Gary Oldman, como Beethoven, em "Minha Amada Imortal". Mas quão fiéis ou sensíveis podemos ser ao nosso maestro?
Imortal ou não, essa música hoje me preenche. Não digo a Nona sinfonia, ou a quinta, ou Für Elise. Digo de algo mais recente. Um que tem algo de obscuro, também; que tem ecos, que, na minha cabeça, soarão e ecoarão eternamente (ou enquanto durar a minha esgotável mente); que não teme a morte, ou pelo menos não quando ela está longe. Algo de um lado escuro da lua, que me deixa comfortável, comfortavelmente anestesiado. Algo que me faz lembrar como, muitas vezes, dizemos tchau antes de nos cumprimentarmos, e quase que por acaso, sem nenhum interesse, perguntamos: "como você se sente?" "Vai tudo bem?"
Sinceramente, eu prefereria que você estivesse aqui. Me faria sentir melhor, não me lembraria que, mesmo grandiosos, perecem. Não que eu vá esquecê-lo, mas este mundo me arraigou muito a ele, e muito disso tem um pouco de você, que deixou tudo mais fácil, embelezou um pouco. Talvez isso seja eternizar-se. Embelezar-se. Não no sentido fútil. Talvez até mudar a palavra para evitar ambigüidade. Mas embelezar, trazer alguma coisa que, independentemente das pessoas, ficará. Um disco, um plástico, ficarão; mas não é disso que eu falo. Uma música, eterna, que não precisa ser interpretada, uma energia que submerge de catacumbas milenares, nos transportam a galáxias muito distantes, obscurecidas pelas nuvens, ofuscados pelo gordo, velho Sol, queimando nossas vistas.
Eu pediria para você ficar e me ajudar a terminar o dia, mas é isso: temos que ir alguma hora, é inevitável. Um dia, eu e você apenas trocaremos os papéis. Eu estarei em seu lugar. Não ocuparei sua grandiosidade, mas estarei causando alguma filosofia em alguma mente que há de causar alguma filosofia, e, talvez assim, etéreos e distantes, seremos um pouco eternos, um pouquinho, pelo menos.
Vá em paz, Rick. Deixa muitos fãs, não daqueles fãs bobos, mas verdadeiros fãs, que admiram toda sua capacidade, apreciam com toda a fineza e rebeldia de espírito que nos é possível conciliar. Mais uma vez, vá em paz, Rick!
Poderia ser deixarmos um legado a outras gerações, sermos lembrados para sempre, e assim, tudo ser apenas mais simbólico do que necessariamente espiritual ou material? Mas até que ponto seríamos imortais? Até que ponto nossos legados nos serão fiéis? Até que ponto nossas músicas, nossos escritos terão sua interpretação intacta, se é que um dia tiveram?
Subjetivas músicas, que nos dão, à nossas mãos, nossos pés, nossos corpos, a certeza da morte, a beleza da morte, o amor sublime, o amor do pecado, o medo, a traição, a rendição, submissão e por aí vai... sentimos tudo isso, muitas vezes nem sequer percebemos ou conseguimos nos exprimir. "Você escuta uma marcha, você marcha; você escuta uma valsa, você dança", disse Gary Oldman, como Beethoven, em "Minha Amada Imortal". Mas quão fiéis ou sensíveis podemos ser ao nosso maestro?
Imortal ou não, essa música hoje me preenche. Não digo a Nona sinfonia, ou a quinta, ou Für Elise. Digo de algo mais recente. Um que tem algo de obscuro, também; que tem ecos, que, na minha cabeça, soarão e ecoarão eternamente (ou enquanto durar a minha esgotável mente); que não teme a morte, ou pelo menos não quando ela está longe. Algo de um lado escuro da lua, que me deixa comfortável, comfortavelmente anestesiado. Algo que me faz lembrar como, muitas vezes, dizemos tchau antes de nos cumprimentarmos, e quase que por acaso, sem nenhum interesse, perguntamos: "como você se sente?" "Vai tudo bem?"
Sinceramente, eu prefereria que você estivesse aqui. Me faria sentir melhor, não me lembraria que, mesmo grandiosos, perecem. Não que eu vá esquecê-lo, mas este mundo me arraigou muito a ele, e muito disso tem um pouco de você, que deixou tudo mais fácil, embelezou um pouco. Talvez isso seja eternizar-se. Embelezar-se. Não no sentido fútil. Talvez até mudar a palavra para evitar ambigüidade. Mas embelezar, trazer alguma coisa que, independentemente das pessoas, ficará. Um disco, um plástico, ficarão; mas não é disso que eu falo. Uma música, eterna, que não precisa ser interpretada, uma energia que submerge de catacumbas milenares, nos transportam a galáxias muito distantes, obscurecidas pelas nuvens, ofuscados pelo gordo, velho Sol, queimando nossas vistas.
Eu pediria para você ficar e me ajudar a terminar o dia, mas é isso: temos que ir alguma hora, é inevitável. Um dia, eu e você apenas trocaremos os papéis. Eu estarei em seu lugar. Não ocuparei sua grandiosidade, mas estarei causando alguma filosofia em alguma mente que há de causar alguma filosofia, e, talvez assim, etéreos e distantes, seremos um pouco eternos, um pouquinho, pelo menos.
Vá em paz, Rick. Deixa muitos fãs, não daqueles fãs bobos, mas verdadeiros fãs, que admiram toda sua capacidade, apreciam com toda a fineza e rebeldia de espírito que nos é possível conciliar. Mais uma vez, vá em paz, Rick!
sábado, 9 de agosto de 2008
Brado retumbante
Um dia qualquer, não mais importante que o dia de hoje, acordei. Não tinha água, não tinha luz. Nenhum passarinho. Nada. Fui trabalhar, trânsito. O dia agourento rapidamente me tirou o que havia de tranquilidade. O céu vermelho do crepúsculo no outono trouxe à tona o ódio de tudo que eu tinha, um ódia também escarlate.
Uma lágrima escorreu pelas minhas bochechas. Caiu na minha mão, que coçou. Foi o estopim: gritei, esbravejei, clamei, xinguei, maldisse, bradei, praguejei, berrei, vociferei um som tão comprido, alto e destrutível que se calaram os arredores, os carros da rua, os prédios, para escutá-lo. Pararam as indústrias, as cidades vizinhas e transmitiu-se o grito ao mundo pelas antenas de rádio e TV. Tamanha cólera chocou o mundo, e fez-se a paz no Oriente Médio. Pararam de brigar famílias, gangues e máfias. Não houve inverno, que fugiu envergonhado, dando lugar à primavera. Foi a única vez que a fúria transmutou em amor. O mundo nunca mais foi o mesmo. Foi um só dia, mas foi o melhor dos dias.
--------------------------
Texto escrito ainda em 2006, só estou copiando do antigo papel que aos poucos se amarela, ainda que meus pobres olhos não possam perceber.
Uma lágrima escorreu pelas minhas bochechas. Caiu na minha mão, que coçou. Foi o estopim: gritei, esbravejei, clamei, xinguei, maldisse, bradei, praguejei, berrei, vociferei um som tão comprido, alto e destrutível que se calaram os arredores, os carros da rua, os prédios, para escutá-lo. Pararam as indústrias, as cidades vizinhas e transmitiu-se o grito ao mundo pelas antenas de rádio e TV. Tamanha cólera chocou o mundo, e fez-se a paz no Oriente Médio. Pararam de brigar famílias, gangues e máfias. Não houve inverno, que fugiu envergonhado, dando lugar à primavera. Foi a única vez que a fúria transmutou em amor. O mundo nunca mais foi o mesmo. Foi um só dia, mas foi o melhor dos dias.
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Texto escrito ainda em 2006, só estou copiando do antigo papel que aos poucos se amarela, ainda que meus pobres olhos não possam perceber.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Um fogo-fátuo, uma miragem
Aqueles olhos que passavam o dia a me vigiar!Ainda que não pudesse manter os olhos em mim, sei que eu era obviamente vigiado. Cada vez mais a vigilância não cessa, não cede, não quero que ceda.
A verdade é que hoje não acordei pra poesia, apesar de uma certa fluência na minha materna língua.
Só sei que, desses olhos flamejantes, não escapei. Ainda bem, não escapei. Vermelhos, na verdade, não. Mas lindos, sem dúvida. Em toda essa brancura, tão alva, esconde o impecável sorriso, esconde os contornos que a mim, me parecem simétricos. A outra metade da simetria reside em mim. Os cabelos vermelhos, obviamente, tudo é falso. Não menos cativantes. Não menos poderosos, entretanto. Enlaçam-me, deixam-me perdido, me acham.
Não sei o quê, mas tem algo nessa foto de mais especial que muitas outras. O olhar um pouco egípcio, um pouco ainda dotado de adjetivos não presentes nos dicionários, mas, indubitavelmente bons adjetivos, dão um leve aroma à foto, como uma cor de alguma especiaria que nos faz sentir um gosto bom. Nada, portanto, impede de se sentir um gosto bom ante uma bela visão. Ou um belo cheiro inerente à própria imagem planificada de delineações sublimes, unicamente criadas e trabalhadas, artesanalmente, certamente provinda de algum cristal fino, que por descuido, se juntou ao barro de alguma costela de algum Adão, e formou algo tão sensível, quebradiço, mas que, pelas minhas mãos, hão de ter o cuidado necessário para que se resista à maior intempérie possível; hão de saber o sabor de um cuidado, um sabor de qualquer coisa que traga alguma felicidade, momentânea, mas um momento que não pode ser repetido e que na memória, entretanto, não pode cessar de existir, de ser e de se recriar.
Tudo isso nas cores, sons, formas, odores e tatos que o homem pode perceber. Há ainda tantas outras dimensões, ultra-violetas, sub-aromáticas, super-doces que só através de um poderoso sensível equipamento pode-se perceber: cumplicidade!
Muda?
-Muda alguma coisa?
-Se mudasse, estaria tudo diferente!
-Mas pode ser que ainda não mudou!
-Mas ah, o tempo antes de nós foi grande, não muda mais!
-E o tempo além?
-Garante-me que há?
-Não.
-Se mudasse, teria mudado! Se achamos que muda, o tempo que se passará antes da mudança será suficientemente grande para apagar a mudança, torná-la miserável, infinitesimal, como gostam de dizer matemáticos.
-Então não muda?
-Não haveria por quê mudar! O tempo desmuda! Sempre!
-Se mudasse, estaria tudo diferente!
-Mas pode ser que ainda não mudou!
-Mas ah, o tempo antes de nós foi grande, não muda mais!
-E o tempo além?
-Garante-me que há?
-Não.
-Se mudasse, teria mudado! Se achamos que muda, o tempo que se passará antes da mudança será suficientemente grande para apagar a mudança, torná-la miserável, infinitesimal, como gostam de dizer matemáticos.
-Então não muda?
-Não haveria por quê mudar! O tempo desmuda! Sempre!
Um texto de não-sei-quê
Se não é a morte que nos assusta tanto, talvez seja a vida, pois!
Passo um bom tempo a assistir vídeos, clipes, ouvindo minhas músicas favoritas, sendo que uma boa parte, possivelmente, duas, três, quatro, cinqüenta, cem vezes mais velhas do que eu.
Me fazem pensar em tanta coisa, e muitas vezes perco bons pensamentos acreditando que começo a pensar outro melhor, mas aí o antigo, depois que percebo sua qualidade superior, me foge como foge um peixe, esguio, de nossas mãos ao tentar tocá-lo.
Assisto a várias bandas que meus pais ouviam, ouço-as com ouvidos novos, embora sejam sons antigos. Sons que possivelmente começaram a mudar o mundo antes mesmo que eu começasse a me entender como uma alma que se preparava para adentrar a penosa, porém não menos agradável, vida terrena.
Vejo tantos mortos que me comovem, me movem, mudam a batida do meu coração, e mais além ainda, mudam meus passos ao caminhar. John, Freddie, George, Syd, até Elvis, dentre muitos outros. Vejo lugares que nunca estive, mas sinto como se de lá emanasse parte da energia que me sustenta como ser ativo de algum restrito meio cultural do qual tento fazer parte e do meio social ao qual tento convidar muitos.
Não sei bem qual foi o meu intuito ao escrever isso, mas me saiu de modo que minhas entranhas não suportavam todas essas palavras juntas. Talvez fosse uma homenagem à grandes defuntos, que agora pagam pela vida que tiveram, como um dia hei de pagar, e, assim, toda minha energia esvair-se-á de modo que, no sono eterno, estarei preso não mais a um corpo, mas a uma forma estranha de energia que foi sinceramente criada, recriada, descomportada, divulgada e transferida por honorários defuntos ou pré-defuntos, onde leis e físicas não se aplicam, onde o som é, sim, uma onda, uma vibração mas que tem muito mais a ver com coração que com meio de propagação.
Seres propagantes somos nós. Em propaganda veloz ou até mesmo na mais lenta, porém duradoura, levamos adiante a fim de talvez lembrarmos de nossos tempos, quando vagarmos sem rumo, talvez fátuos, talvez disformes, levianamente descuidados com a realidade dos vivos, nos assustando cada vez mais com essa vida, cada vez mais preocupada com coisas que, no nosso tempo, e nos de nossos antepassados e dos sucessores da presente geração, não pode nos fazer nenhum sentido, e assim, dizendo sempre a frase: "no meu tempo..." - um tempo que jamais existiu, não fosse pela dubiedade que nos obrigamos a nos expor, esquecendo-nos que o nosso tempo não é nosso, mas, de alguma forma, devemos muito a quem tenta construí-lo, esses nossos defuntos, moribundos ou não, pioneiros ou não, mas que nos marcam, levam nosso presente a quem, um dia, o achará estranho, aceitando-o por quê, afinal de contas, tudo tem sua beleza.
Passo um bom tempo a assistir vídeos, clipes, ouvindo minhas músicas favoritas, sendo que uma boa parte, possivelmente, duas, três, quatro, cinqüenta, cem vezes mais velhas do que eu.
Me fazem pensar em tanta coisa, e muitas vezes perco bons pensamentos acreditando que começo a pensar outro melhor, mas aí o antigo, depois que percebo sua qualidade superior, me foge como foge um peixe, esguio, de nossas mãos ao tentar tocá-lo.
Assisto a várias bandas que meus pais ouviam, ouço-as com ouvidos novos, embora sejam sons antigos. Sons que possivelmente começaram a mudar o mundo antes mesmo que eu começasse a me entender como uma alma que se preparava para adentrar a penosa, porém não menos agradável, vida terrena.
Vejo tantos mortos que me comovem, me movem, mudam a batida do meu coração, e mais além ainda, mudam meus passos ao caminhar. John, Freddie, George, Syd, até Elvis, dentre muitos outros. Vejo lugares que nunca estive, mas sinto como se de lá emanasse parte da energia que me sustenta como ser ativo de algum restrito meio cultural do qual tento fazer parte e do meio social ao qual tento convidar muitos.
Não sei bem qual foi o meu intuito ao escrever isso, mas me saiu de modo que minhas entranhas não suportavam todas essas palavras juntas. Talvez fosse uma homenagem à grandes defuntos, que agora pagam pela vida que tiveram, como um dia hei de pagar, e, assim, toda minha energia esvair-se-á de modo que, no sono eterno, estarei preso não mais a um corpo, mas a uma forma estranha de energia que foi sinceramente criada, recriada, descomportada, divulgada e transferida por honorários defuntos ou pré-defuntos, onde leis e físicas não se aplicam, onde o som é, sim, uma onda, uma vibração mas que tem muito mais a ver com coração que com meio de propagação.
Seres propagantes somos nós. Em propaganda veloz ou até mesmo na mais lenta, porém duradoura, levamos adiante a fim de talvez lembrarmos de nossos tempos, quando vagarmos sem rumo, talvez fátuos, talvez disformes, levianamente descuidados com a realidade dos vivos, nos assustando cada vez mais com essa vida, cada vez mais preocupada com coisas que, no nosso tempo, e nos de nossos antepassados e dos sucessores da presente geração, não pode nos fazer nenhum sentido, e assim, dizendo sempre a frase: "no meu tempo..." - um tempo que jamais existiu, não fosse pela dubiedade que nos obrigamos a nos expor, esquecendo-nos que o nosso tempo não é nosso, mas, de alguma forma, devemos muito a quem tenta construí-lo, esses nossos defuntos, moribundos ou não, pioneiros ou não, mas que nos marcam, levam nosso presente a quem, um dia, o achará estranho, aceitando-o por quê, afinal de contas, tudo tem sua beleza.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Home, sweet home!
Tem dias
em que a simples casualidade
da existência nos tira a vontade
de nos levantarmos da cama.
E sempre no inverno, que tem frio.
O fato de, por acaso, existirmos
naquele momento chega a incomodar.
Não queremos, por um momento, ser.
Muito menos pensar.
Bom mesmo seria estar em outro lugar,
mas não seria eu,
pois estou aqui.
Estar por acaso
diante do mais belo ocaso
e sentir isto ser incapaz
de despertar algum nervo,
algum axônio, alguma terminação nervosa
ou algum receptor
acordar e nos dizer:
olhe como isto é lindo,
fique possesso de prazer!
Mas ele só percebe:
como está frio! Entre para casa!
Resignado, me vou.
Não para minha verdadeira casa,
mas minha longínqua casa,
onde não sinto nas paredes
o aconchego,
onde não há colo,
onde os móveis não podem,
em hipótese alguma,
ter um lugar certo.
Não, queria mesmo é não ser eu,
estar longe,
estar perto não da distância
e sim do conforto que só mesmo
minha verdadeira casa me dá,
minha família, amigos.
Já fugi de casa, agora quero o colo,
cansei de voltar depois das 3,
e de liberdade.
Quero ir para casa!
em que a simples casualidade
da existência nos tira a vontade
de nos levantarmos da cama.
E sempre no inverno, que tem frio.
O fato de, por acaso, existirmos
naquele momento chega a incomodar.
Não queremos, por um momento, ser.
Muito menos pensar.
Bom mesmo seria estar em outro lugar,
mas não seria eu,
pois estou aqui.
Estar por acaso
diante do mais belo ocaso
e sentir isto ser incapaz
de despertar algum nervo,
algum axônio, alguma terminação nervosa
ou algum receptor
acordar e nos dizer:
olhe como isto é lindo,
fique possesso de prazer!
Mas ele só percebe:
como está frio! Entre para casa!
Resignado, me vou.
Não para minha verdadeira casa,
mas minha longínqua casa,
onde não sinto nas paredes
o aconchego,
onde não há colo,
onde os móveis não podem,
em hipótese alguma,
ter um lugar certo.
Não, queria mesmo é não ser eu,
estar longe,
estar perto não da distância
e sim do conforto que só mesmo
minha verdadeira casa me dá,
minha família, amigos.
Já fugi de casa, agora quero o colo,
cansei de voltar depois das 3,
e de liberdade.
Quero ir para casa!
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